Atos convocados pela APP-Sindicato ocorreram em todo o estado
No último sábado, 30 de agosto, o Calçadão de Londrina sediou uma aula sobre memória, resistência e combate ao autoritarismo.
Professores, funcionários de escola e estudantes ocuparam o centro da cidade para relembrar o ataque sofrido em 1988, quando o então governador do Paraná Álvaro Dias, reprimiu violentamente uma greve deflagrada pela categoria em prol de melhores condições de trabalho.
A mando do governador, educadores foram recebidos pela cavalaria, cachorros e bombas na capital paranaense. Lúcia Abelha, professora aposentada da rede estadual participou do protesto e o classificou como uma “cena de guerra”.
“Fomos atacados por policiais montados a cavalos, então, era uma correria, fugindo de cavalaria, bombas estourando”, diz.
A docente também apontou a desigualdade de forças e avalia que desde então as opressões persistem, só mudaram os modos como elas se apresentam.
“Professor não usa arma, todo mundo estava desarmado, mas foi afrontado dessa maneira, foi horrível. O que fica é a indignação pelo desrespeito à categoria e profissão, que infelizmente continua sendo desvalorizada. Não temos o devido respeito e valor até hoje”, avalia.
Quase 40 anos depois, as violências contra educadores perduram de diferentes formas no estado. Sob a gestão de Ratinho Júnior (PSD) docentes e funcionários de escola têm sofrido com a desvalorização, aumento de terceirizações, plataformização e militarização do ensino, assédio institucional e arrocho salarial, conforme tem denunciado a APP-Sindicato.
O professor Alexandre Orsi ressaltou os impactos do programa “Parceiro da Escola”. A medida permite que a gestão escolar seja repassada para a iniciativa privada. Desde o início de 2025, o programa está presente em 82 das mais de 2 mil escolas estaduais do Paraná.
Ele também evidencia o crescente adoecimento da categoria, confira:
Mais de 8,8 mil professores da rede estadual de ensino do Paraná foram afastados do trabalho por motivos relacionados à saúde mental em 2024. O dado é da Secretaria de Estado da Administração e da Previdência (SEAP) e foi fornecido em resposta a um requerimento apresentado pela deputada Ana Júlia Ribeiro (PT).
O número de professores e professoras afastados representa cerca de 13% do total da rede estadual, que atualmente tem 68.837 profissionais, segundo o portal Consulta Escolas. A situação é mais alarmante entre os profissionais concursados: os 8.888 afastamentos correspondem a 23,5% do quadro efetivo de 37.773 docentes. A categoria vem denunciando uma estresse e cobranças para o cumprimento de metas.
“Jamais poderemos esquecer o 30 de agosto, quando o governador Álvaro Dias, colocou a cavalaria para cima dos professores, sofreram violência física, muita violência, hoje não é diferente, mas a nossa violência hoje é psicológica, porque nós temos os assédios, as pressões dentro da escola. Então, estamos aqui no Calçadão de Londrina mostrando a nossa manifestação hoje como um dia de trabalho e de luta”, assinala a secretária de Funcionários de Escola da APP-Sindicato, Elisabete Almeida.
“A nossa violência continua psicológica, mas a gente nunca desiste da luta, estamos firmes para acabar com essa truculência do governo, porque o governo passa, e nós, educadores e educadoras, ficamos para sempre, a nossa luta é contínua e nunca para”, ela reforça.



“Para que nunca mais se repita”
Para Márcio André Ribeiro, professor da rede estadual e presidente da APP-Sindicato Núcleo Londrina, lembrar é resistir. A liderança pontua a importância de recordar a data, que tornou-se um dia de luto e de luta na educação paranaense, a fim de que “nunca mais se repita”.
Ainda, ele ressalta que a mobilização também tem como finalidades “honrar” os trabalhadores que participaram do ato e clamar pelo apoio da população paranaense em defesa da educação pública, que tem sofrido intenso desmonte no estado.
“Os nossos direitos, eles não aparecem do nada, eles sempre acontecem depois de muita luta, muita batalha, muita exigência da nossa parte. Então, quando fizemos isso, fomos reprimidos e estamos aqui hoje para trazer para a sociedade, para toda a nossa categoria, esta memória tão importante. Para os nossos colegas que hoje já estão aposentados, alguns já não estão entre nós, mas precisamos manter a honra dessas pessoas que estiveram lá por todos nós há décadas atrás”, afirma.

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Doutora em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero; religião; política e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast independente sobre política na perspectiva de mulheres.












