Quando falamos sobre pessoas trans, muitas vezes o papo é sobre a violência que nossa população sofre. Citamos estatísticas, assassinatos, exclusão do mercado de trabalho, expulsão de casa. Tudo isso é real e absolutamente urgente. Mas há outras perguntas que atravessam nossas vidas, que raramente aparecem nos relatórios ou políticas públicas. Uma delas é simples e incômoda: quem é considerado digno de receber amor?
Neste ponto é importante diferenciar afeto e desejo. Corpos trans são frequentemente desejados em um sentido puramente sexual. Como ilustração disso temos que o Brasil é o país que mais consome pornografia de categorias trans. Contudo, muitas vezes trata-se de desejo no escuro, no secreto. Um desejo sem afeto, desumanizado, onde nossos corpos são tratados como mera carne, como produto supérfluo para satisfação pessoal.
Existe uma diferença brutal entre desejar um corpo e reconhecer esse corpo como digno de amor. Essa diferença não é uma questão de opinião pessoal. Ela é socialmente construída.
A cisnormatividade organiza nossa sociedade no nível do reconhecimento e acesso a direitos formais, mas também opera no campo das relações pessoais e do afeto. Ela define quais corpos são plausíveis enquanto parceires, quais pessoas são reconhecíveis como amor.
Novamente, isso não significa que corpos dissidentes não sejam desejados. Muito pelo contrário. O exemplo do consumo de pornografia escracha isso. Há um desejo evidente, impossível de negar. Mas desejo e reconhecimento não são a mesma coisa. O desejo pode operar simplesmente no campo do consumo, enquanto o reconhecimento exige um deslocamento da norma.
Quando uma sociedade estrutura o mundo a partir de um ideal rígido de gênero, ela não apenas define quem é considerado homem ou mulher “de verdade”. Ela também define quem pode ocupar certos lugares simbólicos: o lugar de esposa, de namorado, da pessoa apresentada à família, do casal que aparece na fotografia.
Não há neutralidade nesta distribuição. Ela se produz a partir de uma gramática social que privilegia alguns corpos e torna outros estranhos, improváveis, impensáveis nesses papeis.
Isso está diretamente relacionado com a forma como pessoa trans são vistas na sociedade de forma ampla. Não se trata de dizer somente que determinado corpo seja “estranho” ou “diferente”, mas da construção deste imaginário onde existências específicas não se encaixam no padrão de “vida plena”.
No final das contas, percebemos como a dinâmica das desigualdades é profunda e multidimensional, e nos lembramos como até o amor também é um campo de disputa.
Abolir desigualdades também significa questionar quem a sociedade permite amar.

Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.












