Tem pessoas que entram nos lugares e apenas entram. Passam despercebidas, falam o que têm para falar e vão embora. Outras, no entanto, não têm esse privilégio. Não porque querem, não porque façam questão de serem notadas, mas porque sua presença perturba a ordem das coisas. Corpos que, por si só, são capazes de lembrar o mundo que aquilo que chamam de normalidade é apenas o hábito de não ver o que incomoda.
Para estas pessoas, existir é um manifesto. Não tem nada a ver com terem escolhido uma bandeira ou papel político. Suas vidas, ou melhor, nossas vidas, são rachaduras em um muro supostamente homogêneo chamado cisnormatividade. Não temos o luxo da neutralidade.
Quando um corpo trans entra em um espaço onde não havia qualquer outro como ele, há uma inevitável reorganização. Não porque este corpo realiza alguma ação ativa, mas porque desmente a ficção de que o sexo e o gênero são fixos, naturais, óbvios. A simples existência deste corpo é a prova fundamental deste sistema que ensinou o mundo a pensar em tais padrões como se fossem verdades absolutas.
Há quem chame isso de “ativismo”, mas isso reduz o que realmente está em jogo. Ninguém acorda um dia pensando em ser símbolo de alguma coisa. Tem vezes que o máximo que se quer é atravessar a rua sem ser olhade com desconfiança. Aquele cansaço cotidiano de sempre explicar o óbvio. A dor de ser quem se é. É neste espaço que a existência se converte em (r)existência, resistência. Se reinventa.
Quando uma pessoa trans se senta à mesa, caminha pelo corredor, pega um microfone, ocupa um cargo público, fica difícil esconder: a sua presença expõe o preconceito escondido e a fragilidade de um sistema que só se sustenta se alguns corpos forem invisíveis.
A cisnorma, que gosta de se fingir de natural, se desmancha diante daquilo que não consegue domesticar. O corpo trans não lhe é dócil, não é explicável, não se adequa a suas expectativas. É uma denúncia viva, uma força política que não se apaga.
Isso nos lembra que não é necessariamente preciso gritar para transformar. Às vezes, basta continuar aparecendo, voltando, ocupando o espaço que tentaram interditar. Um corpo diferente sentado em uma sala, caminhando por uma rua, amando e sendo amado em público, é suficiente para desorganizar este mundo inteiro. E é assim, aos poucos, que esse muro vai rachando. Nas convivências, nas perguntas que surgem, nas certeza anteriores que agora parecem ridículas.
É assim que destruiremos este muro e acabaremos com a violência transfóbica. Não será por decreto, nem por decisão em assembleia. Será o esgotamento da própria lógica cisnormativa.
Chegará este dia em que nenhum corpo precisará se justificar. Quando esse dia chegar, contudo, não será uma conquista apenas das pessoas trans, mas de todos os corpos que foram silenciados por existirem fora da norma. Por isso, ocupemos todos os espaços, cada dia mais.

Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.











