Na primeira coluna, vimos que a construção do “bem contra o mal” na luta entre os espectros políticos ao longo da história não se resume a direita e a esquerda. Estamos em um momento histórico em que as disputas sociais se concentram entre esses dois campos, mas, afinal de contas, como podemos defini-los? Vamos tratar disso não como uma luta moral, mas a partir do pensamento de Norberto Bobbio, que propõe que a diferença entre esses dois campos está em como eles veem a igualdade.
A direita tende a entender as desigualdades como algo natural e até mesmo aceitável, pois podem ser benéficas para a dinâmica da sociedade. Vê que toda tentativa de eliminar ou diminuir essas disparidades, através do Estado, pode trazer distorções. Seria ‘injusto’ tirar de alguém para dar a outro, comprometendo a liberdade individual. Assim, as tentativas de reduzir a desigualdade deveriam ser fruto de ações individuais, pelo esforço próprio dos sujeitos, pelo mérito da conquista ou pela filantropia.
A esquerda, por outro lado, acredita que o Estado deve ser o instrumento promotor da redução das desigualdades, pois elas seriam fruto das estruturas e das relações sociais. O Estado deve buscar essa redução por meio da criação de oportunidades, de políticas públicas e de ações afirmativas que busquem colocar as pessoas o mais próximo possível das mesmas condições, garantindo a sobrevivência básica para que todos possam desenvolver suas potencialidades humanas.
E aqui chegamos a um ponto importante: como a direita e a esquerda fazem para chegar aos seus objetivos? O que define o método é a “liberdade”.
Quando essa disputa de ideias acontece respeitando a existência de atores sociais de ambos os campos, podemos dizer que estão utilizando a democracia como espaço de mediação dos conflitos para chegar aos seus objetivos. A esquerda no debate democrático leva ao que podemos definir como social-democracia e a direita leva ao liberalismo. Neste cenário a existência do conflito é permitida sem ocorrer uma ruptura institucional.
Mas, quando o conflito social atinge um nível de tensão que não aceita mais a existência da outra parte, a liberdade, ou seja democracia enquanto método passa a ser um obstáculo e é sacrificada em nome do objetivo final. Neste momento os campos da esquerda e da direita chegam ao extremo: um para impor a igualdade à força, outro para manter a hierarquização social rígida sustentada pela força ou por tradições incontestáveis.
A história nos traz dois exemplos marcantes. O uso da força na Rússia em 1917, diante da opressão do regime czarista, levou à Revolução Russa, na busca por igualdade. Já o Nazismo e o Fascismo, na Europa após a Primeira Grande Guerra, levaram à construção de regimes autoritários baseados na desigualdade, trazendo o discurso de uma raça superior e a extinção daqueles julgados inferiores. Por isso, o maniqueísmo, ver o outro como um inimigo a ser eliminado, é tão perigoso. A defesa da democracia por ambos os lados é fundamental para que não seja necessário chegar a uma “guerra civil”, pois, quando a democracia morre, ela dá lugar ao uso da força bruta.
Em suma, a bússola de Bobbio nos ensina que a política não precisa ser uma eliminação do adversário. A democracia é o espaço onde a esquerda pode lutar por mais igualdade e a direita pode defender suas liberdades e méritos sem que o sangue precise correr. O maniqueísmo, ao contrário, é o convite ao abismo. Defender a democracia é, acima de tudo, garantir que o conflito de ideias continue sendo uma ferramenta de construção, e não de destruição.
Nota: Norberto Bobbio (1904 a 2004) foi um dos mais importantes filósofos políticos e historiadores do pensamento moderno. Italiano, sua obra “Direita e Esquerda” é considerada um marco para a compreensão das distinções ideológicas contemporâneas baseadas nos valores da igualdade e da liberdade.

Laurito Porto de Lira Filho
Laurito Porto de Lira Filho, formado em Educação Fisica pela UEL, é uma figura do movimento sindical do Paraná, atuando como Presidente do Sindicato dos Bancários de Londrina e Região. Funcionário do Banco do Brasil, coordena o coletivo dos funcionários do Banco do Brasil na Região de Londrina e integra o Coletivo de Formação Sul da CUT, consolidando sua trajetória na defesa dos direitos trabalhistas e na formação política.
Sua atuação social estende-se à saúde pública, onde é conselheiro de saúde em Londrina e atualmente está na comissão organizadora da Conferência Municipal de Saúde de Londrina. Para além da militância, Laurito é um entusiasta da fotografia em preto e branco e do cinema conectando sua visão de mundo ao pensamento de filósofos sociais e à valorização da equidade e da saúde mental através do cinema na parceria com o PET-SAÚDE/UEL no Cine Equidade.












