Plano de reestruturação também inclui solicitação de empréstimo e fechamento de 700 agências
Os Correios avaliam a demissão de 10 mil funcionários como parte do plano de reestruturação da empresa apresentado ao TCU (Tribunal de Contas da União), no último dia 14 de novembro.
O plano inclui empréstimo de R$ 20 bilhões e PDV (Programa de Demissões Voluntárias), que pode atingir cerca de 8,6% do atual quadro da estatal.
Além do empréstimo e das demissões, os Correios pretendem vender imóveis ociosos e renegociar contratos com fornecedores, em busca de condições mais vantajosas.
Segundo o presidente dos Correios, o economista Emmanoel Schmidt Rondon, que assumiu o cargo em setembro, as medidas visam contribuir para o ajuste de contas da estatal.
No entanto, Elisabete Barbosa Ortiz, presidenta do Sintcom-PR (Sindicato dos Trabalhadores dos Correios do Estado do Paraná) avalia que as dispensas irão reduzir ainda mais o efetivo que já opera com número insuficiente de funcionários.
“A solução não é demissão, pelo contrário é aumentar o quadro, dar condições de trabalho, organizar a área comercial, buscar novos clientes, trazer todas as empresas públicas a utilizar os serviços dos Correios e, principalmente, valorizar os trabalhadores que estão sendo massacrados com tantos prejuízos”, diz.
A liderança reforça a urgência da contratação dos candidatos aprovados no último concurso, realizado pela estatal em 2024. Além disso, ela destaca que a contenção de despesas poderia seguir outros caminhos, a exemplo do fim das terceirizações.
“Em nossa análise, as retiradas da terceirização de dentro da empresa, como agências franqueadas, terceirizados, frota terceirizada e uma administração com capacitação e sem interesses pessoais e indicações de cargos e funções seriam o caminho para o sucesso e fortalecimento da empresa. Os Correios é uma das empresas que mais acumulam cargos de alto escalão”, observa.
Para Ortiz, a escolha da atual presidência pelas demissões voluntárias, além de penalizar os trabalhadores, irá inviabilizar a maioria dos serviços prestados pelos Correios, “afundando a empresa”.
“Outra medida importantíssima é tapar os buracos onde escoa a receita da empresa. Como unidades terceirizadas e franqueadas, a diminuição dos cargos de chefia com salários altíssimos e nomeações políticas sem capacidade de gerenciamento e reorganizar a logística”, ressalta.
A sindicalista pontua que acredita que a categoria não irá aderir ao plano de demissões voluntárias e reforça que o Sindicato está disposto a fazer um grande enfrentamento à iniciativa, que também trará prejuízos à população.
“Numa hipotética situação de demissões, quem mais sofreria seria a sociedade que depende do serviço dos Correios que tem responsabilidade social e não de dar lucros. Todas as áreas sofreriam porque já estamos reduzidos ao extremo, qualquer baixa na empresa é uma sobrecarga a mais”, assinala.
O plano também estabelece o fechamento de 700 agências em todo o país. “O reflexo está nas diversas cidades que estão com as agências fechadas, outras que abrem uma ou duas vezes por semana, entregas esporádicas, trabalhadores que tem que deslocar de uma cidade para outra colocando sua saúde e vida em risco”, indica.
O TCU deve acompanhar a execução do plano e a participação do governo federal na operação de crédito prevista, incluindo o eventual envolvimento de bancos públicos.
“Chicote está cada vez mais intenso”
De acordo com Ortiz, apesar dos pedidos dos sindicatos e federações que representam os trabalhadores dos Correios, até o momento a direção da empresa ainda não sentou para negociar a campanha salarial de 2025. A situação se arrasta desde julho.
Além disso, ela evidencia a constante vigília dos trabalhadores contra a privatização, aprovada na Câmara dos Deputados em 2021, mas estacionada no Senado.
O presidente Lula (PT) retirou os Correios da lista de privatizações (Programa Nacional de Desestatizações) em 2023. Apesar do avanço, a presidenta do Sintcom-PR compartilha a dificuldade de diálogo a fim de destravar as negociações.
“Vencemos a venda dos Correios com a chegada do presidente Lula, mas não paramos de sofrer e o chicote está cada vez mais intenso nas costas dos trabalhadores. As representações não conseguem chegar ao presidente Lula, apesar de estarmos buscando diversos meios de acesso para pedir socorro”, adverte.
“A categoria está esgotada com tantos prejuízos que vem sofrendo há anos. Mas é uma categoria combativa e não vamos entregar os nossos direitos e não vamos permitir a privatização da nossa empresa, vamos lutar para torná-la de qualidade e sustentável”, ela complementa.
Além da recomposição salarial, os trabalhadores exigem melhorias no plano de saúde, entre outras garantias previstas no Acordo Coletivo de Trabalho – 2024/2025 (confira aqui). Caso as reivindicações não sejam atendidas, a categoria não descarta deflagração de greve a partir de dezembro.
“Entendemos que o governo tem responsabilidade de fazer aporte financeiro para os Correios, uma vez que a empresa é um braço do governo e executa ações que são de responsabilidade do governo como a atuação dos Correios nas tragédias de Brumadinho, Rio Grande do Sul, recentemente Rio Bonito do Iguaçu, atendimento aos aposentados do INSS [Instituto Nacional do Seguro Social] e vários outros”, conclui Ortiz.

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Doutora em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero; religião; política e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast independente sobre política na perspectiva de mulheres.












