Lançamento da terceira edição propiciou cinco horas de programação diversificada e gratuita
No último domingo (1º), o Canto do Marl, tradicional espaço da cultura popular em Londrina, foi palco do lançamento do 3º Festival das Diversidades, evento promovido pela produtora cultural Kapanga Criativa e pelo programa de extensão da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Práxis Itinerante.
Foram cinco horas de programação gratuita, começando com feirinha composta por expositores de diferentes áreas, selecionados a partir de chamamento público. As inscrições para quem desejar integrar a grade de atividades seguem abertas até 20 de março (saiba mais aqui). A inauguração também contou com discotecagem do DJ Olliviery e apresentação do grupo Doce Veneno.
“Para mim foi muito satisfatório trazer meu som, eu trabalho muito com músicas marginais latinas, desde o funk que é do Brasil, reggaeton de Porto Rico, Colômbia, e vários outros ritmos. Também o Tecnomelody do Pará, então, poder trazer essa minha pesquisa musical para um evento que valoriza tanto essas possibilidades de diversidade, para mim foi incrível”, avaliou Olliviery.
Para o multiartista, que também é integrante da Frente Trans Londrina, e tem uma intensa participação na cena cultural local, a principal diferença do Festival é a possibilidade de reunir diferentes linguagens artísticas – música, dança, teatro, artesanato, pintura, fotografia, entre outras – em um mesmo local.
“Desejo vida longa ao Festival das Diversidades, que ele continue abraçando e trazendo vários temas e profissionais, muito massa poder compartilhar esse espaço”, pontuou.
A artesã e cientista social, Luciane dos Santos, destacou a oportunidade de divulgar sua marca Zuri Bonecas Artesanais, criada em 2018. Para Luciane, além da ludicidade, as bonecas surgem como um instrumento de inclusão e transformação social.
“As minhas bonecas falam sobre essa diversidade, tanto a com vitiligo, a com deficiência, as orixás. Nós somos um público diverso, então, é muito importante ter esses espaços, para que a gente possa se ver, se comunicar, estar feliz e livre”, afirmou.
“As bonecas são muito importantes pra mim enquanto pessoa negra porque eu me vejo representada de forma bela. Se pensarmos que somos 56% da população que se autodeclara negra e apenas 12% das bonecas fabricadas pela indústria são negras, a gente se pergunta por quê?”, questionou.
Ainda, Luciane ressaltou a importância do afeto na luta antirracista. “A boneca negra também é importante para a pessoa branca porque é um instrumento de afeto. Você dá carinho, conta os seus segredos. Quando um corpo branco faz isso com um corpo que representa o meu corpo, um corpo negro, ele tende a ser menos racista”, disse.

Spadini, artista responsável pela Rabiskos, iniciativa voltada à produção de adesivos, grafites, zines, roupas, entre outros produtos, salientou a contribuição do Festival para a democratização do acesso e estímulo à cultura, principalmente, aquela produzida por grupos historicamente marginalizados.
“Eu gosto muito de festivais no geral por movimentar a cultura, promover esse encontro de pessoas, ter shows gratuitos. Então, eu sempre costumo participar de eventos assim. E acho muito importante esta preocupação de não ser as mesmas pessoas, sempre as mesmas caras, de não ser uma cultura que vem de cima para baixo, mas vem de várias pessoas diferentes”, observou.
Para Stanley Machado, um dos idealizadores do Lado Errado, grupo dedicado à criação de artes marginais, o público eclético que comparece ao Festival é um dos grandes atrativos, oportunizando uma maior interação com o segmento que já acompanha o trabalho desenvolvido pelo coletivo.
“O que eu mais acho que o Festival se diferencia é pelo o que já está no nome, a diversidade, porque a gente vê a diversidade das pessoas que estão frequentando”, indicou.
Quando a margem vira centro
Durante o lançamento, também ocorreu a mesa “Corpos marginalizados na cultura e na ciência”, com as participações de Malu Jimenez, Menor NPR e Ursula Boreal.
A discussão pautou a urgência de romper com uma visão ainda predominante no fazer científico, que tende a considerar sujeitas e sujeitos de camadas subalternizadas como objetos de estudo.
A produção de uma ciência encarnada, reivindicada durante a mesa, prevê que grupos à margem ocupem o centro e, assim, sejam reconhecidos como protagonistas de suas próprias histórias.
“Fiquei muito feliz quando recebi o convite, pra mim é uma oportunidade gigantesca poder estar junto com pessoas incríveis. Eu cheguei aqui pelo ‘Poesia 043’, que foi o primeiro livro que eu escrevi, mas também já estou lançando o segundo, ‘As Crônicas de um Poeta Periférico’, e poder participar de um evento que amplifica as nossas vozes, de nós que somos as diversidades, para mim é muito gratificante”, sinalizou o rapper e escritor Menor NPR.
Malu Jimenez, filósofa, artivista, autora do livro “Lute como uma gorda” , pontuou a potencialidade dos encontros, ampliando as redes de cuidado e saberes.
A professora do curso de Pós-Graduação em Diversidade e Inclusão em Comunicação da PUC-Minas e do mestrado em Comunicação da UEL, fundadora do Pesquisa Gorda, primeiro grupo de pesquisa transdisciplinar sobre corporalidades gordas no Brasil, é uma das homenageadas da Mostra Educação, Ciência e Direitos Humanos Dr. Oscar Nascimento (in memorian), juntamente com a cientista social, pesquisadora de temas como antirracismo e anticapacitismo, Beatriz Batista, e o sambista e professor Joaquim Braga, o Braguinha.
“Eu estou muito feliz, ainda está reverberando em mim, esse momento do Festival das Diversidades tem sido muito emocionante, no sentido da gente se unir entre corpos dissidentes, falar sobre temas que a gente não ouve muitas vezes na universidade, entender que a gente não está sozinho, que a gente está junto, que a gente precisa se firmar, se ajudar, se fortalecer”, argumentou.
“A minha avaliação é que eu fiquei absolutamente honrada porque foi uma mesa incrível que eu pude dividir com duas pessoas maravilhosas que têm contribuições fundamentais e eu acho que é isso, a gente conseguir se encontrar nas diferenças, o que nos une, o que une a nossa luta, o que une a nossa busca pela diversidade”, concordou Ursula, cientista social, doutoranda em Sociologia na UEL e integrante da Frente Trans Londrina.

“Onde somos vistos”
A abertura do Festival encerrou com a jogação da Ballroom Londrina, momento em que o espaço foi tomado por palmas e leques.
“Foi incrível, a energia do pessoal foi uma maravilha, principalmente, nesse final que teve o encerramento com a Ballroom, o pessoal estava se jogando bastante, as palmas rolando bastante, então, é uma energia que o Festival das Diversidades sempre me trouxe, esse vigor e hoje não foi diferente”, lembrou Dark Ocean.
Neste ano, o Festival das Diversidades integra o Circuito Paraná Plural, realizado por meio do Programa Paraná Festivais, uma iniciativa da Secretaria Estadual de Cultura do Paraná em parceria com a HOTMILK – Ecossistema de Inovação da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), com apoio da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura).
Para mais informações sobre a programação, que se estende até agosto, ocupando diferentes espaços de Londrina e cidades vizinhas, acompanhe @festivaldasdiversidades.

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Doutora em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero; religião; política e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast independente sobre política na perspectiva de mulheres.












