Encontro também elegeu delegadas para 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres
“Um dia histórico”, é desta forma que as participantes da 1ª Conferência Livre de Políticas para Mulheres Negras de Londrina classificaram o e encontro. Partindo do tema: “Pela vida das mulheres negras – Pelo bem viver – Território, corpo e ancestralidade em movimento”, o evento aconteceu neste último domingo (03) no terreiro Casinha da Vovó Maria do Rosário, localizado no Jardim Morumbi, zona Leste da cidade.
A atividade foi proposta pelo Coletivo Black Divas e contou o apoio de diversas entidades como a Coalizão Negra por Direitos, Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde-Núcleo Paraná (ANEPs-PR), Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET Saúde Equidade UEL), NEABI Conceição Evaristo (Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas da UTFPR Londrina) e o Ylê Axé Ópó Omim.
A Conferência contou com uma programação ampla, incluindo feira de artesanato, apresentações culturais e palestra intitulada “Mulheres negras para o bem viver – coalizão negra por direitos”.
Marselle Nobre de Carvalho, professora do Departamento de Saúde Coletiva da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e coordenadora geral do PET Saúde Equidade, evidenciou o pioneirismo do evento e a importância de reunir mulheres negras, segmento mais vulnerabilizado da sociedade brasileira, para expor suas reivindicações e lutas.
“Uma região que se autodeclara hegemonicamente branca, mas que tem uma população significativamente e representativamente negra, entre pretos e pardos, é importante a gente reunir as mulheres mais invisibilizadas, mais vulnerabilizadas e mais violentadas de todo o país, e não é diferente na cidade de Londrina”, assinalou.
Ainda, a docente ressaltou a necessidade de políticas públicas interseccionais, ou seja, que contemplem classe, gênero, pertencimento étnico-racial e orientação sexual. Para ela, entre as várias demandas, uma das mais urgentes é a geração de emprego e renda, assegurando condições de trabalho dignas.
Segundo dados do Ministério do Trabalho, a taxa de desemprego entre mulheres negras é o dobro de homens brancos.
Além disso, ela pontuou o imperativo de extinguir as múltiplas formas de violência, das quais as mulheres negras são as vítimas mais recorrentes. A professora também salientou o quanto o racismo estrutural afeta o acesso à saúde.
“As mulheres pretas são as que mais sofrem violências de todas as ordens, violência doméstica, violência sexual, violência intrafamiliar de todo tipo, e especialmente, a violência obstétrica. Aqui, porque da minha área, eu sou professora da área da Saúde Coletiva, obviamente a gente acompanha todo tipo de violência contra as mulheres, porque começa pelo estigma de que a mulher preta é forte, a mulher preta aguenta dor, então, por isso ela não precisa de anestesia, ela não precisa ter cuidados mais específicos, e assim ela sofre todo tipo de violência também no processo de maternagem, parto e puerpério”, advertiu.

Silvana Rodrigues Quintiliano, dirigente espiritual da Casinha da Vovó Maria do Rosário, membra do CEPCT/PR (Conselho Estadual de Povos e Comunidades Tradicionais do Paraná) e professora da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) – campus Londrina, classificou o evento como “um marco” para Londrina.
“Nós estamos oportunizando esse espaço de debate, de reflexão, para que essas propostas sejam elaboradas de acordo com a necessidade efetiva das mulheres negras”, disse.
A liderança destacou a oportunidade do terreiro sediar mais um encontro em prol da população negra, visando o debate de políticas públicas que assegurem melhores condições de vida.
“O terreiro é um espaço sagrado de resistência, então além do acolhimento nós também proporcionamos a oportunidade de empoderamento, de fala, de visibilidade. Então as mulheres negras vêm buscando espaços para que elas possam estar inseridas. Desde conselhos, feiras, cada vez mais criar oportunidade para essa visibilidade”, observou.

Para ela, o letramento racial é imprescindível para o combate ao racismo e a intolerância religiosa. “Meu sonho é que a partir do conhecimento desses espaços de fala, nós possamos minimizar a intolerância, o racismo que nós ainda temos em nossa sociedade, em muitos espaços ainda implícitos e outros explícitos, e termos uma oportunidade de uma sociedade mais inclusiva no futuro para os nossos filhos”, ponderou.
Akin Lima, agente comunitário de saúde e orientador de serviço do PET Saúde Equidade UEL, também destacou a importância da articulação para a promoção de uma educação antirracista.
“Acho que a primeira coisa é buscar uma educação racial, um entendimento do assunto e a união dessas mulheres é muito importante. Pensando em Londrina, a gente está bem aquém do que deveria ser. Então acho que o primeiro momento seria o contato, a aproximação dessas mulheres para o movimento”, afirma.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, também participou do evento por videoconferência.
Após as falas, as participantes formaram grupos temáticos. As discussões foram apresentadas durante plenária, que aprovou as propostas a serem levadas para a 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, marcada para os dias 16 e 19 de setembro em Brasília.
“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”
Sandra Aguilera, coordenadora do Coletivo Black Divas sinalizou a indissociabilidade entre as práticas antirracistas e a inclusão. Para ela, a implementação de cotas raciais em todo sistema de ensino e funcionalismo público é uma demanda que não pode mais ser adiada.
“A gente precisa ampliar em todos os sentidos, não só falar da questão racial, mas do emprego, o lugar da mulher negra é dentro da UEL, de todas as universidades, ocupação geral. Melhorar sistema de cotas”, sustenta.
O mesmo vale para a iniciativa privada, de acordo com a liderança. “As empresas precisam contratar pessoas negras. Qualificação nós temos, porque não somos contratadas?”, questiona.

Conferência Estadual
Entre os dias 29 a 31 de julho, Foz do Iguaçu sediou a 5ª Conferência Estadual de Políticas para Mulheres do Paraná. O evento reuniu representantes da sociedade civil, gestoras públicas e lideranças de todas as regiões do estado para discutir propostas de fortalecimento das políticas públicas para mulheres nos contextos urbano e rural. Durante o evento, foram eleitas 105 delegadas estaduais que irão representar o Paraná na etapa nacional (saiba mais aqui).

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Doutora em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero; religião; política e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast independente sobre política na perspectiva de mulheres.












