A Educação de Jovens e Adultos enfrenta um esvaziamento silencioso nas escolas públicas do Estado
EJA é a sigla para Educação de Jovens e Adultos, uma modalidade da educação básica brasileira voltada para jovens, adultos e idosos que não concluíram o ensino fundamental ou médio na idade esperada. Porém, cada vez mais, as políticas para sua manutenção sufocam a modalidade e o aprendizado dos estudantes.
A EJA pode ser feita de duas maneiras: Por aulas presenciais ou à distância, normalmente em escolas públicas, ou por meio de exames de certificação, como o Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos).
Para Ivo Ayres, coordenador da EJA em Londrina, é imprescindível a preparação presencial dos alunos nas escolas, com aulas e avaliações processuais, valorizando a produção coletiva do conhecimento, considerando também os saberes que os estudantes trazem de suas experiências. “O governo de Ratinho e Júnior, desde 2019, mudou o sistema EJA e engessou a oferta, transformando o que era antes feita por disciplina, que era bem mais flexível, que garantia ao estudante trabalhador, mais possibilidades dele mesmo organizar a sua vida escolar, os seus horários, os dias que ele poderia estudar, para um sistema engessado”, ressalta Ivo.
Além disso, o governo passou a incentivar alternativas como exames de suplência e a EJA a distância, desestimulando a modalidade presencial. Muitos trabalhadores, diante dessas opções, acabam optando por caminhos que exigem menos tempo, mas que também oferecem pouco ou nenhum conteúdo. Assim, a procura pela EJA presencial tem diminuído, não por falta de interesse, mas pelas dificuldades impostas.
Em contato com duas escolas públicas de Londrina, Olavo Garcia e José Carlos Pinotti, foi mencionado que para haver uma turma EJA seria necessário de, no mínimo, 20 estudantes, porém não havia procura suficiente. “A alegação de falta de procura em escolas é consequência direta de uma política estadual que, na prática, afasta as pessoas das salas de aula”, afirma Ivo.
“Esses 20 alunos, são muito diferentes entre si. Não é como numa escola de adolescente, em que há uma padronização, em que há uma certa homogeneidade da apropriação de saberes, do nível de ensino. Na EJA, nós temos pessoas muito diferentes, desde jovens a idosos. Então, para o governo do estado interessa colocar um professor com 40 alunos numa sala de aula e passar a ter aula por plataformas”, destaca.
A luta do Fórum Paranaense de EJA sempre foi por uma educação que respeite o tempo e as necessidades dos trabalhadores, com uma carga horária mínima bem aproveitada, que permita a construção de saberes por meio da troca entre estudantes e professores. A EJA presencial transforma vidas e promove o verdadeiro acesso ao conhecimento escolar, necessário para quem quer fazer um concurso, um curso técnico ou entrar na universidade. “A EJA foi criada para atender jovens, adultos e idosos que, por diversos motivos, interromperam seus estudos. A sua existência deve garantir não apenas o certificado, mas a formação de qualidade. Essa é a luta histórica do Fórum Paranaense de EJA”, declara Ayres.
Trajetória da EJA
Na década de 1940, a EJA se tornou uma política nacional, impulsionada pela Constituição de 1934, que tornou o ensino primário obrigatório e gratuito. Em seguida, na década de 1960, as ideias de educação popular cresceram, com movimentos como o Movimento de Educação de Base (MEB) e o Movimento de Cultura Popular (MCP). Na década de 1970, foi criado o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização), visando legitimar o regime militar. Depois, em 1996, A LDB nº 9.394/96 oficializou a EJA como modalidade de ensino. Nos anos 2000 foi criado o Programa Brasil Alfabetizado, com o objetivo de alfabetizar jovens, adultos e idosos e em 2002 o Encceja foi criado, sendo realizado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).
O Censo Escolar 2024 mostrou uma redução no número de matrículas na EJA em comparação com anos anteriores, com uma queda mais acentuada no ensino fundamental. Entre 2020 e 2024, houve uma diminuição no número de alunos, com uma queda de 20,4%. Entre 2023 e 2024, a diminuição foi de 7,7%. Apesar da queda, cerca de 68 milhões de brasileiros com 18 anos ou mais não concluíram a educação básica.
Matéria da estudante de Jornalismo, Clara Borbalan, sob supervisão












