Sintcom-PR afirma que medida do plano de reestruturação traz prejuízos financeiros, riscos à saúde e mudanças na rotina dos trabalhadores
A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos anunciou, na última semana, a adoção gradual da escala de 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso (12×36) em atividades específicas da empresa. A mudança integra o Plano de Reestruturação da estatal e, segundo comunicado, será implementada conforme as necessidades do serviço.
De acordo com os Correios, a nova jornada está alinhada à modernização dos fluxos operacionais e ao aumento da eficiência, especialmente, em áreas que demandam funcionamento contínuo diante do crescimento do comércio eletrônico. A empresa afirma ainda que a medida respeitará a legislação trabalhista e os direitos dos empregados.
A iniciativa, no entanto, tem sido alvo de críticas e questionamentos por parte de trabalhadores e entidades sindicais. A Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos e Similares (Fentect) afirma que a mudança “precariza ainda mais as condições de trabalho” e orienta os funcionários a não assinarem acordos individuais”.
Para a presidenta do Sintcom-PR (Sindicato dos Trabalhadores nos Correios do Paraná), Elisabete Ortiz, a mudança representa uma alteração significativa no contrato de trabalho dos funcionários, que atualmente prevê jornadas de oito horas diárias.
“A empresa tentou colocar essa proposta na negociação do acordo coletivo em agosto de 2025, e foi rejeitada imediatamente pelos trabalhadores e pela mesa de negociação”, conta.
Segundo ela, mesmo após a recusa, a empresa decidiu implementar a medida de forma unilateral. “Ela tomou essa decisão de implantação da jornada sem a aceitação dos trabalhadores, manualizando isso nas normas internas”, diz.
Elisabete explica as consequências dos acordos individuais que acabam por fragilizar ainda mais a situação da categoria. “Quando o trabalhador assina um acordo individual, ele sai do acordo coletivo que a empresa tem que respeitar. Isso fragiliza a organização coletiva”, afirma.
Entre os principais impactos da nova jornada, ela destaca a perda de adicionais e benefícios. “Um dos primeiros grandes prejuízos é a perda do adicional de 15% de sábado. Além disso, o trabalhador deixa de receber os 200% de fim de semana e feriados previstos hoje”, adverte.
Também existem mudanças nos benefícios.“A empresa diz que não vai reduzir o vale-alimentação, mas ele passa a ser pago só pelos dias trabalhados. Então, na prática, há redução. O mesmo acontece com o vale-transporte”, observa.
O Sintcom-PR se preocupa com a ocorrência de assédio moral e coação nas unidades, pois, segundo a presidenta, embora digam que a adoção da jornada é voluntária, os gestores estão assediando trabalhadores, “dizendo que quem não aceitar pode ser transferido de unidade ou até perder função”, relata.
Sobre a saúde dos trabalhadores, Elisabete alerta para o aumento do desgaste físico. “O trabalho nos Correios já é exigente. Imagine trabalhar 12 horas seguidas com apenas uma hora de intervalo. Isso leva à exaustão”, assinala.
Ela também aponta riscos de acidentes e doenças ocupacionais, porque manter a produtividade e a atenção por 12 horas aumenta exponencialmente o risco de acidente de trabalho e o desenvolvimento de doenças, que já são frequentes na categoria.
De acordo com a liderança, o tempo de descanso não compensa o desgaste. “O corpo leva de 12 a 15 horas só para se recuperar do turno anterior. Então sobra pouco tempo para um descanso real e qualidade de vida”, defende.
A mudança também impactaria a organização da vida pessoal, pois o trabalhador perderia a regularidade de sábados e domingos. “A própria empresa prevê apenas um domingo de descanso por mês”, conta Elisabete.
A adoção da escala 12×36 ocorre em meio a um amplo plano de reestruturação dos Correios, que procura estabilizar a empresa de um déficit superior a R$ 4 bilhões anuais, patrimônio líquido negativo de R$ 10,4 bilhões e prejuízo acumulado de R$ 6,057 bilhões até setembro de 2025, além da queda em indicadores de qualidade e liquidez.
Como parte das medidas, a estatal anunciou a captação de R$ 12 bilhões em crédito, o fechamento de mais de mil agências, a venda de imóveis considerados ociosos e a implementação de um Plano de Desligamento Voluntário (PDV), com expectativa de adesão de até 15 mil empregados (saiba mais aqui).
Em fevereiro, os Correios realizaram o primeiro leilão de imóveis próprios, com 21 unidades ofertadas em 11 estados.
Para Elisabete, o conjunto de ações revela uma estratégia de sucateamento da empresa. “Eles usam a palavra reestruturação como uma cortina de fumaça. O objetivo real é sucatear para privatizar”, acredita.
Segundo ela, sindicatos e Federação têm atuado para organizar a mobilização da categoria frente aos retrocessos, orientando os trabalhadores a não aderirem à escala, produzindo materiais, convocando manifestações nas unidades e articulando com parlamentares, para que possam mediar as reivindicações dos trabalhadores junto a instâncias superiores.
“A gente entende que não é dessa forma que vão conseguir reestruturar a empresa e colocar os Correios de pé”, conclui.












