Pesquisa divulgada na semana passada mostra que 40% dos entrevistados se declaram petistas e 34% se declaram bolsonaristas. Os números são do Instituto Datafolha e foram divulgados pelo jornal Folha de S.Paulo. O levantamento foi feito com 2.002 pessoas, entre 2 e 4 de dezembro, em 113 municípios.
A pesquisa mostra, também, que 35% dos entrevistados se dizem de direita e 22% de esquerda. Nesse contexto, 34% de quem se diz petista afirmam ser de direita ou de centro-direita. Enquanto isso, 14% dos que dizem ser bolsonaristas, identificam-se como esquerda ou centro-esquerda.
Esses números são usados para explicar a polarização política que divide o país e que é necessário pacificar as relações sociais, como se o país nunca tivesse sido dividido entre opressor e oprimido. Essa divisão sempre existiu, mas a invisibilidade de grupos vulnerabilizados dava a sensação de paz e democracia nas relações sociais.
A partir do momento que o preto, o pobre, a mulher, o indígena, a pessoa LGBT exigiram visibilidade e direitos fizeram levantar o racista, aquele que odeia pobre e indígena, o misógino e o LGTBfóbico. Essa gente não quer que os vulnerabilizados tenham espaço e conquistem cada vez mais. Jair Bolsonaro na Presidência da República é o sintoma maior do sistema que quer os debaixo ainda mais embaixo, com a ajuda, inclusive, de quem nunca subiu.
A divisão política em dois polos à esquerda e à direita, passando pelo centro e indo aos extremos, é uma característica de democracias antigas. Podemos citar a França, a Inglaterra e os Estados Unidos. Nesses países, a divisão – você pode minimizar chamando de polarização – sempre existiu e não é um problema a ser combatido, nem uma convulsão a ser pacificada socialmente.
Trabalhadores franceses costumam protestar, usando até a violência, quando projetos e leis ameaçam seus direitos. Quando a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher morreu, britânicos tomaram as ruas para comemorar a morte da filiada ao Partido Conservador, que governou entre 1979 e 1990, consolidando o neoliberalismo que destruiu garantias trabalhistas. Nos Estados Unidos, recentemente, milhares de pessoas tomaram as ruas para protestar contra a política do extremista da direita Donald Trump.
Pode-se dizer que essas massas, em sua maioria, tomam as ruas a partir de uma consciência de classe que move a luta por direitos – sejam trabalhistas, sejam de cunho social. E o mundo se orgulha dessas democracias antigas. No Brasil, arrisco dizer que a visibilidade da divisão social não ocorre por consequência de uma tomada de consciência, mas por ressentimento.
Durante os governos desenvolvimentistas do PT, o ódio foi naturalizado e tornou-se instrumento político. Ódio naturalizado contra grupos vulnerabilizados que precisam da proteção do estado; aos programas sociais que injetam dignidade em milhões de família; à diversidade sexual e às famílias não tradicionais. Isso gerou muito ressentimento. Nesse sentido, não há pacificação social em curto prazo. Se é que um dia haverá.
A sociedade e o estado brasileiros foram construídos sobre muitos pilares e um deste é o da desigualdade social, de base colonizadora que criou cidadãos de primeira, segunda e terceira categoriais. Existe uma divisão informal de castas, nas quais os mais ricos têm privilégios e direitos da maioria são tidos como atraso. Quem tem quer manter seus privilégios e muitos que não conseguiram se ressentem e culpam o outro por não terem conseguido.
Um exemplo é o sistema de cotas. Muitos se ressentem de não terem conseguido a vaga naquele vestibular, porque a perderam para um cotista; ou porque acham que as cotas são sobre capacidade e não oportunidade. Os ressentidos passam a atacar não somente as cotas, mas a universidade pública. Os ressentidos justificam o feminicídio, a transfobia e muitos outros problemas graves.
Nesse contexto, fica fácil entender o porquê de muito petista se dizer de direita e bolsonarista se afirmar de esquerda. Não é mera contradição, mas falta de conhecimento acerca do papel do estado na economia e a confusão causada pelas diferenças desses dois polos com o conceito de conservadorismo e progressismo. Isso impede que muito trabalhador compreenda que é um projeto político de esquerda que vai ampliar seus direitos e as políticas públicas, não um projeto de direita.
Não à toa, muito trabalhador é contra o fim da escala 6×1 e repete o discurso de que a economia vai quebrar. Muito trabalhador ataca os sindicatos de trabalhadores. Muito trabalhador ainda acredita na meritocracia a partir do esforço pessoal. Muito trabalhador nem se enxerga enquanto classe trabalhadora. O ressentimento é, portanto, um elemento de mobilização mais eficaz que a consciência.

Reinaldo Zanardi
Jornalista, doutor em Estudos da Linguagem, mestre em Comunicação. Diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Norte do Paraná. Professor do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina. Membro do Conselho Municipal de Política Cultural de Londrina.











