Professores salientam a intransigência do governador, que não tem dialogado com a categoria
Na quarta-feira, dia 3 de dezembro, aconteceu a última assembleia geral docente da UEL (Universidade Estadual de Londrina) de 2025. O encontro convocado pelo Sindiprol/Aduel, ocorreu no Anfiteatro Maior do CLCH (Centro de Letras e Ciências Humanas) e teve como pautas: a campanha salarial de 2025, a mobilização contra a Reforma Administrativa e a eleição de delegados para o 44º Congresso do ANDES-SN (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior).
Lorena Portes, professora do Departamento de Serviço Social da UEL e presidenta do Sindiprol/Aduel, acrescenta que durante a assembleia foram pontuadas as ações realizadas pelo Sindicato em articulação com o FES (Fórum das Entidades Sindicais do Paraná), com o Comando Sindical Docente e Coletivo de Sindicatos de Londrina e Região.
De acordo com a docente, um dos destaques foi a postura intransigente do governador Ratinho Júnior (PSD), que apesar das diversas tentativas do funcionalismo, tem se recusado a dialogar com os servidores, que reivindicam o pagamento da data-base.
Ao não conceder a recomposição, o governador tem desrespeitado a Lei nº 15.512/2007, que estabelece o direito à correção salarial aos servidores com base no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), ou seja, na inflação acumulada.
“As discussões apresentadas voltaram-se a analisar a ausência de uma mesa de negociação para tratar da recomposição salarial, evidenciando o descaso e a falta de interesse político do governo do estado, Ratinho Júnior em dialogar com o funcionalismo público e apresentar uma proposta para reparar a imensa defasagem salarial”, diz.
No Paraná, os servidores vinculados ao poder Executivo estão sem reajuste salarial desde 2017, atingindo perdas estimadas em 47%. O índice é o maior já amargado pela categoria.
Apesar da dívida, no Projeto de Lei nº 248/2025, que institui a Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2026, o Palácio do Iguaçu não estabeleceu a recomposição para os servidores. Com isso, o governador Ratinho Júnior deixa um calote histórico.
“Destacou-se o conjunto de ações e tentativas de abertura de uma negociação por parte das entidades sindicais, mas que ficou sem respostas, mostrando a omissão do governador diante do arrocho salarial que afeta a vida dos servidores públicos do estado, com destaque para a categoria docente das universidades estaduais”, ressalta Portes.
Mediante a omissão do governo em abrir uma mesa de negociações, os docentes aprovaram, em votação unânime, a realização de uma nova assembleia em fevereiro de 2026, cuja pauta será a apreciação de indicativo de greve pela reposição salarial.
“Considerando as diversas tentativas, sem sucesso, de abertura de diálogo por parte das seções sindicais do ANDES-SN, a situação leva à urgência de construção de um movimento grevista como ferramenta fundamental da luta sindical na atual conjuntura. O funcionalismo público não tem reposição integral das perdas inflacionárias desde 2017”, observa Portes.
Em sete anos de governo, Ratinho só concedeu três reposições, em maio 2019, no valor de 2% (paga a partir de janeiro de 2020); em maio de 2021, com o índice de 3% (a partir de janeiro de 2022); e em maio de 2023, quando o reajuste foi de 5,79% (a partir de agosto).

Organizar a luta
Ronaldo Gaspar, docente do Departamento de Ciências Sociais da UEL e diretor de Comunicação do Sindiprol/Aduel, evidencia que apesar das derrotas da extrema-direita, a exemplo da prisão de sua principal liderança, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no último dia 24 de novembro, a agenda neoliberal encampada pelo setor continua pungente, o que dificulta a organização sindical, principalmente, entre os funcionários públicos.
“Soma-se a isso a estúpida desconfiança sobre as realizações das universidades – também disseminada pelo neoliberalismo e pela extrema-direita -, o cenário é muito desfavorável para a conquista de vitórias contra o governo, especialmente salariais”, complementa.
Apesar das dificuldades, Gaspar avalia que neste ano o Sindicato obteve conquistas importantes, sobretudo, em relação às condições de trabalho dos docentes temporários. “Como o destravamento do período de férias, a eliminação da cláusula inibitória de greves nos contratos”, aponta.
De acordo com dados divulgados pela Reitoria, a UEL conta com aproximadamente 580 professores temporários, o que corresponde a um terço de todo o corpo docente.
Tem caixa, mas falta prioridade
A principal justificativa utilizada pelo governador para não conceder o direito dos servidores é a falta de recurso. Porém, em maio último, o secretário da Fazenda, Norberto Ortigara disse em audiência pública na ALEP (Assembleia Legislativa do Paraná), que as receitas totais do estado apresentaram um crescimento real de 3% no primeiro quadrimestre deste ano, passando de R$ 24,5 bilhões para R$ 26,6 bilhões.
Ainda, segundo levantamento do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o governo do Paraná tem margem fiscal de 10% para reajustar os salários, sem ultrapassar o limite da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Além disso, como informado pelo Portal Verdade, nos últimos três anos, o governo do Paraná deixou de arrecadar cerca de R$ 60 bilhões em renúncias fiscais. Os dados mostram que, entre 2022 e 2024, o estado deixou de receber R$ 19,8 bilhões por ano, em média.
Entre os principais beneficiados estão o agronegócio e a Copel (Companhia Paranaense de Energia), que lucrou R$ 2,8 bilhões em 2024, mas deixou de recolher R$ 262 milhões em impostos (saiba mais aqui).
“É necessário, diante do quadro exposto, uma reorganização e fortalecimento do movimento político da categoria docente do ensino superior público do estado do Paraná, que não aceitará ser destroçada por um governo que serve aos interesses do mercado, que amplia previsão na Lei Orçamentário Anual de 2026, para renúncia fiscal (21,5 bilhões de reais) e, por outro lado, não prevê correção salarial para os servidores públicos; que recompõe salários dos Poderes Judiciário e Legislativo, mas surrupia o direito de recomposição salarial dos trabalhadores e trabalhadoras do Executivo”, enfatiza Portes.
A assembleia também manifestou apoio à Carta dos Conselhos de Centro e do Conselho Universitário, que exige da Reitoria, da Apiesp (Associação Paranaense das Instituições de Ensino Superior Público) e do secretário da SETI (Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Estado do Paraná), Aldo Bona, posicionamentos públicos de apoio à reivindicação de reposição das perdas salariais. Uma nova reunião com a pasta foi marcada para o próximo dia 15 de dezembro.
O Sindicato tem insistido na abertura de uma mesa de negociação, buscando dialogar com parlamentares, liderança do governo e com a Casa Civil. “Além, é claro, da mais importante das ações: continuar a tentativa de organizar a categoria para a mobilização, a luta e, quiçá, uma greve no próximo ano contra esse governo e o violento arrocho salarial promovido por ele”, assinala Gaspar.
“Nós estamos dispostos a conversar, analisar as propostas do governo e levar para debater com a nossa base. Mas precisamos da manifestação propositiva do governo. O seu silêncio já é uma resposta. E essa, não é difícil de compreender”, complementa Portes.
Os professores André Lopes Ferreira, Evaristo Colman, Fernando Pereira Candido e Lorena Portes foram eleitos delegados para o 44º Congresso do ANDES-SN, que ocorrerá de 2 a 6 de março em Salvador.

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Atualmente, é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero, religião e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast sobre política na perspectiva de mulheres.











