Manifestantes também reivindicaram justiça tributária, fim da escala 6×1 e a defesa da soberania nacional
No último sábado (6), ocorreu o 31º Grito dos Excluídos e Excluídas em Londrina. A concentração iniciou às 9h em frente ao Cine Teatro Ouro Verde. No espaço foi servido um café coletivo acompanhado da leitura de passagens bíblicas e canções que destacaram a necessidade de “esperançar” em referência aos ensinamentos do educador Paulo Freire, que defende a esperança como um movimento, sinônimo de luta.
Organizado por diversas entidades como pastorais sociais, Centro de Direitos Humanos de Londrina, Levante Popular da Juventude, programa de extensão Práxis Itinerante, Coletivo de Sindicatos, Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, o protesto reuniu autoridades políticas, lideranças sociais, sindicais, religiosas e populares que se juntaram no Calçadão para ouvir as falas.
Um dos primeiros a se manifestar, o arcebispo de Londrina Dom Geremias Steinmetz, destacou a importância dos movimentos sociais para garantir melhores condições de vida a toda população indistintamente.
“As grandes questões de interesse humanitário passam sempre pelos movimentos sociais, nos quais as pessoas podem manifestar seu desejo e seus anseios”, disse.
Neste ano, o Grito apresentou o lema “Cuidar da casa comum e da democracia”. Em entrevista ao Portal Verdade, padre Dirceu Luiz Fumagalli, vigário social da Arquidiocese de Londrina, representante da CPT (Comissão Pastoral da Terra) pontuou que a finalidade é chamar a atenção para a urgência de cuidar do planeta, em oposição ao negacionismo climático, além de reivindicar a distribuição justa da terra e a produção de alimentos saudáveis.

A defesa da democracia e da soberania nacional mediante ataques de outros países também foi um assunto levantado pelos participantes.
“Nós estamos vendo uma família que quer continuar a sua prática de morte, que quer continuar o favorecimento para o imperialismo. E a ameaça está ali na fronteira. Quem assistiu os jornais ontem viu tanques de guerra, navios. É isso que aqueles que não acreditam na justiça e na participação querem fazer conosco. Portanto, companheiros e companheiras, a nossa luta tem que ser todos os dias, cuidarmos das pessoas ao cuidarmos da casa comum, cuidarmos da nossa democracia, pelo direito da participação, pelo direito à organização, pelo direito de mobilização”, enfatizou Isabel Diniz, historiadora e presidenta do Partido dos Trabalhadores em Londrina.
A liderança referiu-se ao tarifaço imposto pelo Estados Unidos ao Brasil. Aliado de Jair Bolsonaro (PL), Donald Trump tem tentado influenciar o sistema judiciário brasileiro, que neste momento julga o ex-presidente por tentativa de golpe de estado.
Além disso, na última sexta-feira (5) Donald Trump, ordenou o envio de 10 jatos para Porto Rico, sob a justificativa de “combater” cartéis de drogas na região do Caribe.
O anúncio do envio dos jatos ocorre em um momento de escalada entre Estados Unidos e Venezuela. Em julho, Trump assinou uma diretriz para permitir que as forças armadas dos Estados Unidos atacassem os cartéis de drogas latino-americanos que ele define como grupos “terroristas”.

O deputado estadual e presidente do Partido dos Trabalhadores no Paraná, Arilson Chiorato também assinalou a urgência de denunciar a ofensiva de outros países em território nacional, visando interferir no cenário político e econômico.
“Estou aqui como cidadão, como deputado, como presidente do Partido dos Trabalhadores estadual, porque também nós entendemos a importância do Grito dos Excluídos e hoje com esse tema a defesa da vida, da democracia e dos direitos humanos. Tem tudo a ver com o que a gente pensa enquanto partido político, enquanto cidadão, então, a gente quer participar, estar aqui para gente dar visibilidade a esse momento tão importante da história que nós não podemos sofrer de forma algum, algum tipo de intervenção política, financeira de outros países”, argumentou Chiorato.
“Todo mundo que quer o Brasil soberano, as pessoas cuidando da vida, está correto a gente estar aqui hoje. Precisamos aumentar o número de atos nesse sentido, por todo o Estado”, complementou.
Questionado pela reportagem como vislumbra a defesa dos direitos humanos no Paraná, o parlamentar disse que o “Paraná se tornou um estado violento” e “Londrina uma cidade marcada por tragédias envolvendo violência policial e abuso de autoridade”.
“É inadmissível que num momento em que a sociedade vive, com tanta tecnologia, tantas formas preventivas, inteligentes de fazer a prevenção, de fazer de maneira ostensiva esse processo, a gente use métodos arcaicos, modelos de violência descomunais”, observou Chiorato.

Plebiscito Popular
Neste ano, o Grito dos Excluídos também se somou à mobilização nacional em prol do Plebiscito Popular, uma iniciativa das Frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, lançada em 1º de julho. Ao votar, o participante responde a duas perguntas – uma sobre a redução da jornada de trabalho sem alteração salarial, e a outra sobre justiça tributária.
No Calçadão, foram colocadas urnas para receber o voto físico, mas também é possível participar de forma online. A coleta de assinaturas foi prorrogada até 30 de setembro.
“Sempre quando tem uma polêmica, quando precisa, tem algo que é muito importante para a sociedade, tem-se uma consulta popular. E esta consulta popular é a que nós estamos fazendo agora. O Plebiscito é muito importante, porque aqui tem duas perguntas muito básicas. Você é a favor da taxação de grandes fortuna? Você é a favor da redução de imposto para aqueles que ganham pouco? Precisamos que todos respondam, que esteja efetivamente na mente de todas as pessoas e que se transforme em ação porque só assim poderemos diminuir as desigualdades sociais, que são tamanhas”, explicou a professora e diretora da APP-Sindicato Londrina, Vani Espírito Santo.
Durante o protesto, os manifestantes saíram em cortejo pelo Calçadão e pararam em frente ao Banco Itaú, onde discursaram expondo a desigualdade do sistema tributário brasileiro, no qual os mais pobres pagam mais impostos.
“Londrina nunca se furtou a fazer as suas mobilizações, a dar a sua contribuição para a história política e na afirmação da democracia como um direito das pessoas e um dever de nós, cidadãos. Estamos aqui em frente ao Banco Itaú, que é o símbolo do monopólio da exploração dos trabalhadores e das trabalhadoras, os aposentados e aposentadas que têm os seus descontos gerados pelo sistema banqueiro do nosso país, pelo sistema da Faria Lima, pelo sistema que tira do pobre”, ressaltou Diniz.

Extrema-direita chantagista
A deputada federal pelo Paraná, Lenir de Assis (PT) ressaltou que a lista de projetos de interesse nacional parados no Congresso aumenta à medida que a direita – incluindo parlamentares de centro e de extrema direita – trava qualquer discussão que não seja a anistia aos condenados pela tentativa de golpe de Estado no Brasil.
Exemplos disso são os projetos de lei que isenta os trabalhadores com renda de até R$ 5 mil de pagar Imposto de Renda e reduz a alíquota para quem ganha até R$ 7 mil, e o que determina o fim da escala 6×1.
“Hoje, nós temos muitas pessoas adoecidas, especialmente mulheres, e quando você pergunta o que está acontecendo, ela fala ‘estou cansada’. Então, a escala 6×1 é definitivamente, para que todo o povo trabalhador, trabalhadora, tenha no Brasil, no mínimo, dois dias de descanso, para que nós possamos organizar nossas vidas, as famílias, a comunidade, a igreja, o passeio, o lazer, o convívio, a sociabilização e a luta que nós temos. Precisamos cada vez mais avançar”, avaliou.
“Pasmem, uma grande parcela dos deputados federais e também senadores, não querem aprovar a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil. Por que? Porque isso é benefício para os mais pobres. Serão quase 40 milhões de pessoas que serão beneficiadas. Aqui em Londrina, certamente, milhares de pessoas serão beneficiadas. Porque hoje nós temos aqui quase 30 mil pessoas que são beneficiárias do Bolsa Família e de outros programas de transferência de renda do governo federal. São 160 mil pessoas que estão no Cadastro Único, que precisam da intervenção do Estado. De um Estado forte que atenda às demandas das pessoas mais pobres”, acrescentou a deputada.
Disputa da cidade
A vereadora Paula Vicente (PT) reforçou a urgência de disputar um modelo de cidade mais inclusivo face ao avanço de projetos higienistas. Recentemente, a Câmara Municipal de Londrina, aprovou medidas que, segundo especialistas, ferem a dignidade humana e aumentam a segregação, a exemplo da política de internação compulsória (saiba mais aqui).
“Nós temos um prefeito que prometeu, prometeu, prometeu, mas está deixando as mães e os seus filhos em casa sem ter condições de trabalhar. Nós temos um prefeito que quer acabar com os benefícios sociais, que quer acabar com os programas de transferência de renda nessa cidade. O prefeito beneficia apenas seus amigos. Ele tira do povo para dar aos seus próprios amigos. Ele está tirando do povo para beneficiar a ele mesmo, fica viajando com dinheiro público”, advertiu.
“Nós temos que lembrar que as coisas acontecem nas cidades, nós precisamos trazer a nossa juventude para perto da gente, nós precisamos renovar e ganhar corações, então, que esse ar forte sirva de gás para que a gente ganhe ventos e corações, pra que a gente se mobilize nas ruas e nas redes, pra que a gente entenda o que está acontecendo, o grande problema que nós estamos enfrentando aqui na Prefeitura, no Paraná e no Brasil. Eles combinaram de nos matar e nós combinamos de não morrer”, sustentou.
Alisson Poças, assistente social, coordenador do Centro de Direitos Humanos de Londrina também pontuou que a manifestação constitui um espaço de resistência e ruptura com uma “história única” sobre a cidade. Confira:
O cortejo finalizou no chafariz por volta das 11h30, onde foram distribuídas mudas de árvores à população.


Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Doutora em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero; religião; política e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast independente sobre política na perspectiva de mulheres.












