Sindicato chama atenção para a profunda instabilidade administrativa da instituição e “jogo de empurra-empurra”, deixando aproximadamente 70 trabalhadores desamparados
Três meses sem salário para arcar com as necessidades básicas e nenhuma perspectiva de o dinheiro cair na conta. Esta é a dificuldade enfrentada por funcionários da Casa do Bom Samaritano, localizada na região central de Londrina.
Segundo levantamento do Senalba (Sindicato dos Empregados em Entidades Culturais, Recreativas, de Assistência Social, de Orientação e Formação Profissional no Estado do Paraná), a situação atinge aproximadamente 70 trabalhadores, sendo que 40 funcionários aguardam o pagamento de verbas rescisórias e FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) enquanto outros 30 ainda não receberam os salários de novembro e dezembro de 2025 (foi pago apenas o referente a 15 dias de trabalho do mês de dezembro). Também estão pendentes 13º salário e a regularização dos depósitos de FGTS desde agosto do ano passado.
O Sindicato avalia a realidade dos trabalhadores como “extremamente grave”. Em outubro de 2025, a entidade realizou uma coletiva de imprensa, em frente à Casa do Bom Samaritano, para denunciar a falta dos pagamentos (relembre aqui).
“Esta condição gera profunda insegurança quanto à manutenção de seus empregos e a percepção de seus direitos, além de caracterizar um completo desamparo pela ausência de respostas efetivas por parte dos responsáveis pela instituição”, pontua Vilson Vieira de Melo, presidente do Senalba Londrina.
Carina Chrystine Pereira dos Anjos, educadora social, é uma das funcionárias afetadas. Ela destaca que trabalhadores que prestavam serviços nas áreas da assistência social e cuidados com idosos foram dispensados em setembro, quando a direção comunicou a necessidade de encerrar as atividades por falta de orçamento, e até o momento os valores referentes às verbas rescisórias não foram quitados.
“No meu caso, retorno do afastamento dia 20 de janeiro, mas sem previsão alguma de liberação de guias ou pagamentos rescisórios. Tenho também o retroativo de 13º salário. Da pasta do idoso, houve pagamentos parciais sem pagamentos de multas, sem pagamento de 13º salário, sem guias de rescisão, FGTS [Fundo de Garantia do Tempo de Serviço] ou seguro-desemprego”, diz.
Carina descreve a situação amargada pela categoria como “uma grande humilhação”. Ainda, de acordo com ela, os trabalhadores têm encontrado dificuldades de obter informações.
“Parece que estamos pedindo favores, quando na verdade estamos apenas lutando pelos nossos direitos. Estamos totalmente abandonados, soltam notas aleatórias porém sem fundamento com a realidade ou sem explicações para que sejam sanadas as dificuldades. Não temos contato com ninguém seja com a diretoria, escritório de contabilidade, Secretaria de Assistência ou Prefeitura”, adverte.
Conforme informado pelo Portal Verdade, em setembro a direção da entidade, que há 42 anos acolheu pessoas em situação de rua, com deficiência e idosos, informou que os repasses da Prefeitura eram insuficientes para seguir com os serviços.
O Executivo mantinha convênio com a instituição através da Secretaria Municipal de Assistência Social, Secretaria Municipal do Idoso e Secretaria Municipal de Educação. O déficit contabilizava quase R$ 100 mil por mês. Após dois anos de negociações, nenhum reajuste foi assegurado e a entidade precisou fechar as portas. A rescisão do convênio com a Prefeitura foi oficializada em 19 de dezembro.
Melo ressalta que o Sindicato foi recebido pela antiga gestão para tentar negociar os valores, mas o diálogo foi interrompido após a troca de diretoria no fim de setembro de 2025. Segundo a liderança, a nova direção não deu continuidade às negociações.

Muda a direção, mas trabalhadores permanecem na insegurança
No início de outubro, o advogado e padre Cesar Braga da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, no Jardim Shangri-lá B, foi nomeado interventor judicial da Casa do Bom Samaritano pela juíza Gabriela Luciano Borri Aranda, da 1ª Vara da Fazenda Pública, assumindo a gestão administrativa e financeira temporária da unidade.
A intervenção judicial atendeu um pedido da Prefeitura de Londrina que alegou ter encontrado inconsistências financeiras na entidade, o que está sendo apurado pela Controladoria-Geral do município.
Apesar da mudança, as dificuldades para manter a Casa funcionando permaneceram. Braga chegou a publicar um vídeo solicitando doações de alimentos, materiais de limpeza e outros itens essenciais para garantir a continuidade do trabalho desenvolvido pela instituição (saiba mais aqui).
A gestão do Padre César Braga frente à Casa do Bom Samaritano durou pouco mais de um mês. No fim de novembro, o interventor renunciou à gestão. No documento de renúncia, Braga declarou que, após assumir, viu que a entidade tinha graves problemas estruturais, administrativos e financeiros, difíceis de resolver sozinho e em pouco tempo.
Além disso, declarou que vinha sofrendo pressão social, de órgãos envolvidos, e tentativas de sabotagem por parte da “pretensa diretoria eleita”. À época, a direção da Casa rebateu as críticas e alegou que o Padre César se isolou e não dialogou com funcionários nem com a nova administração.
“Em outubro de 2025, houve um encontro com o interventor judicial nomeado, César Braga de Paula, que se comprometeu a apresentar uma solução. No entanto, o interventor renunciou ao encargo pouco tempo depois, deixando os trabalhadores sem qualquer posicionamento”, assinala Melo.
“Jogo de empurra-empurra”
Em resposta ao Sindicato, a Prefeitura tem se limitado a informar que repassou os recursos, eximindo qualquer obrigação referente aos pagamentos diretos aos trabalhadores.
“Apesar de o Sindicato ter protocolado diversos ofícios na Prefeitura detalhando a gravidade da situação, não houve retorno ou proposta de solução por parte da administração municipal”, observa Melo.
Para o sindicalista, a profunda instabilidade administrativa da Casa tem dificultado o diálogo e até comprometido a identificação de quem está responsável pela unidade e pelas pendências.
“Além do cenário de “jogo de empurra-empurra” e da sucessão de renúncias que caracterizam a gestão atual. A instabilidade inclui a renúncia de diretoria, nomeação de nova diretoria, nomeação e subsequente renúncia de interventor judicial, nova renúncia de diretoria e até mesmo de advogados. Esta dinâmica impede, inclusive, a identificação de quem detém a responsabilidade legal pela instituição no momento, dificultando a obtenção de justificativas formais para a falta de cumprimento das obrigações trabalhistas”, adverte.

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Atualmente, é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero, religião e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast sobre política na perspectiva de mulheres.











