A palavra “tolerância” é horrível!
Tolerar significa suportar um incômodo, aguentar algo apesar do desconforto. Este termo transmite a ideia de que a diversidade é uma dor de cabeça, um complicador externo com o qual precisamos lidar. Só que o mundo não é composto por semelhanças. O mundo é feito das diferenças. Logo, o ponto não é “tolerar” as diversidades, é coexistir.
Chega de propor soluções supostamente inclusivas que, na prática, promovem a exclusão. Exemplo clássico: “por que não criamos um banheiro só para pessoas trans?” É como se a segregação fosse uma forma de inclusão. Isso já foi feito antes e o referencial não é positivo: o apartheid sul-africano tinha banheiros separados para brancos e para negros. A lógica é a mesma: “podem existir, mas longe daqui”.
Sinto muito, mas a vida real não é assim. Na rua, no trabalho, no transporte público, estamos todes convivendo. A escola, os espaços públicos, precisam refletir esta realidade.
Pelo mesmo motivo defendemos escolas inclusivas, não como um mero detalhe pedagógico, mas como escolha política: quando crianças com deficiência estudam com crianças sem deficiência, as lições transpassam matérias como matemática, história ou língua portuguesa, tornando-se aprendizado de humanidade. As crianças aprendem a conviver, se apoiar mutuamente. Aprendem solidariedade.
Essa mesma solidariedade que o neoliberalismo tenta corroer, defendendo que cada um deve cuidar de si, que a competição é a regra natural, que as diferenças são problemas de cada um, algo individual, que “ninguém está nem aí para você”. A verdade é que a diferença é coletiva. Somos múltiplas formas de vida, corpos, experiências, vivências, identidades.
Mesmo no interior dos movimentos por diversidade, muitas vezes, nos esquecemos disso. Quanto tempo dispendemos na tentativa de definir quem pode ser chamade do quê, se travesti é mulher ou não, se ser lésbica significa relacionar-se apenas com mulheres ou se vira um fetiche por um órgão sexual específico?
Não me levem a mal, é necessário sim discutir genitalismo e transfobia dentro dos movimentos LGBTI+. Contudo, se toda nossa energia se direciona para ficar estabelecendo fronteiras internas, estamos nos esquecendo do que realmente nos une, o nosso ponto mais bonito: a força que construímos na diferença. A potência de quebrar as normas de mil formas distintas. A pluralidade.
Precisamos reconhecer que a nossa força está exatamente em não sermos iguais. Há beleza na multiplicidade de caminhos, desejos, identidades. Há força em reconhecermos que há muitas formas de ser.
Se para alguém isso for um incômodo, a questão não está nas diversidades. O problema está na expectativa de uniformidade, na velha lógica de achar que existe um jeito certo de ser e estar no mundo. Não existe!
O que existe é a vida. Ou melhor, vidas, no plural.
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Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.











