Um dos grandes problemas relacionados ao déficit de moradia nos municípios é a falta de áreas urbanizadas para atender a demanda. A produção de lotes dotados de infraestrutura é um processo que depende, no capitalismo, da disponibilização de áreas brutas pelos seus proprietários para serem urbanizadas. Muitas vezes essas áreas estão dentro do perímetro urbano do município, mas sua atividade principal ainda é rural. Em outros casos, são proprietários que querem transformar propriedade rural em urbana.
Ainda há os casos em que empresários loteadores visitam os proprietários nos limites do perímetro urbano, propondo aquisição ou parceria para promover loteamento. Oferecem valores por metro quadrado acima do valor da terra agrícola e, muitas vezes, muito acima do valor que é extraído anualmente com a atividade rural. Para se ter uma ideia do que isso significa, em uma transação recente, um proprietário rural vendeu sua fazenda por 7 vezes o valor da área como propriedade agrícola.
Depois da aquisição, é necessário fazer os levantamentos, projetos e submeter à aprovação do município, processo que leva no mínimo 2 anos. Somente após a aprovação do novo loteamento é que o empresário poderá iniciar as obras de urbanização. Após a aprovação o loteamento deve ser registrado em cartório e somente depois desse ato é que poderá ter início as vendas dos lotes. Após a finalização da obra e aceitação do Município, o adquirente poderá iniciar a construção da sua casa. Isso pode levar de 4 a 6 anos.
Entretanto, em Londrina temos uma grande contradição entre a quantidade de lotes vazios, de áreas contidas no perímetro urbano que estão sem uso e a demanda por moradia.
A folha do Perfil de Londrina em elaboração, publicada em 2025, tendo como ano base 2024, apresenta alguns dados que merecem, no mínimo, certa atenção. A “Tabela 3.6.11 Número de inscritos para cadastro de aquisição de moradia e número de contemplado – Londrina 2018 a 2024” traz a informação que 2024 fechou o ano com 61.633 inscritos para 1.188 contemplados. Ou seja, nem 2% dos inscritos tiveram a possibilidade de adquirir sua moradia no ano de 2024, o que projeta para mais de 50 anos a espera dos mais novos inscritos.
No mesmo Perfil, na tabela “3.7.1 Área de terreno (em m2), por uso, em Londrina – 2024” aparece a informação que na sede de Londrina existe quase 144 milhões de m2 de área de terreno sendo que mais de 74 milhões de m2 estão sem uso. Isso representa mais de 51% da área total da sede urbana. A sede urbana é o distrito principal do município, onde se localizam as funções de administração central e contém as atividades econômicas urbanas mais significativas tais como as de comércio, serviços públicos e privados, industriais e a grande maioria das residências. É a parte mais urbanizada do município, que no caso de Londrina, está situada ao norte do território, tendo somente o distrito da Warta ainda mais ao norte.
Se os mais de 74 milhões de metros quadrados fossem loteados e, considerando um aproveitamento final de cerca de 50% para lotes residenciais, teríamos a possibilidade de produzir mais de 148 mil lotes – ou datas – de 250m2, que é o tamanho predominante em nosso Município. Se em cada lote morar uma família com 3 pessoas, teremos a possibilidade de abrigar mais de 440 mil pessoas. Isso significa que cabe pelo menos o equivalente a quase 80% da população atual de Londrina.
Se o crescimento populacional projetado para o município, pelo IPARDES, conforme reportagem do Portal Verdade de 04/07/2025 “Londrina deve perder milhares de habitantes até 2050, aponta Ipardes”, se realizar, só teríamos que urbanizar mais uma pequena fração
dessa área para atender o crescimento que teremos até 2037, quando atingiremos o pico de crescimento populacional, que é assunto para outro artigo.
Essa constatação reforça a tese de que o déficit habitacional é estrutural, no capitalismo, como foi explicado no artigo “A falta de moradia como problema estrutural da sociedade capitalista” publicado nesta coluna. O objetivo dos empresários da área é forçar o aumento dos preços dos terrenos e das edificações para aumentar o máximo possível a acumulação por parte dos grandes detentores de lotes e moradias.
Entretanto, por meio da mobilização popular, pode-se mudar essa situação, forçando o poder público a produzir moradias em maior quantidade, pois além de gerar empregos e renda no município, proporcionaria a melhoria das condições de vida à sua população e também da qualidade de vida para todos moradores da cidade.
A Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) é uma das formas que poderão acelerar a construção de novas moradias, ocupando mais rápido os terrenos vazios e sem uso, forçando a produção de mais lotes, podendo melhorar as habitações existentes, por meio de projetos de reforma e ampliação, direcionados a quem tem sua casa, mas precisa melhorar para atender suas necessidades.
Uma cidade que abriga adequadamente sua população é mais feliz, mais humanizada e tem melhores perspectivas de vida.

Gilson Bergoc
Doutor e Mestre pela FAU USP. Arquiteto e Urbanista, docente da Universidade Estadual de Londrina na área de urbanismo e planejamento urbano e regional. Integrante do Conselho Municipal de Planejamento e Gestão Urbana. Coordenador de Projeto Integrado – Pesquisa e Extensão da UEL e do núcleo de Londrina do BR Cidades. Ex-Prefeito do Campus da UEL e ex-Diretor de Planejamento Físico Territorial do IPPUL.












