Evento ocorre desde 2004 e tem contribuído para importantes conquistas, como a política de valorização do salário-mínimo
Na última terça-feira (29), milhares de trabalhadores, de diferentes categorias e regiões do país, se reuniram em Brasília para mais uma edição da Marcha da Classe Trabalhadora.
O protesto contou a presença das diversas centrais e federações sindicais, a exemplo da FENASPS (Federação Nacional de Sindicatos de Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social).
Eliel Joaquim dos Santos, diretor do SindPRevs-PR (Sindicato dos Servidores Públicos Federais em Saúde, Trabalho, Previdência Social e Ação Social do Estado do Paraná), entidade que compõem a base da FENASPS, conta que uma das principais discussões levantadas foi a necessidade de aproximar as organizações sindicais, estreitando o diálogo e somando forças.
“O encaminhamento que foi aprovado, não pela maioria, mas teve grande apoio foi a unidade das centrais em defesa da pauta dos trabalhadores e das trabalhadoras do Brasil”, diz.
A liderança destaca que, embora haja divergências entre as centrais, a unificação é importante, principalmente, frente ao avanço de governos de extrema-direita, que ao assumir o poder têm desmantelado direitos arduamente conquistados pela classe trabalhadora.
“A gente tem que ter unidade, também temos nossas divergências, mas nós apresentamos uma pauta única, a defesa dos trabalhadores e das trabalhadoras, principalmente, no serviço público, já que a maioria dos nossos sindicatos são do serviço público. Então, acho que esse evento foi muito, mas muito legal mesmo, eu gostei imensamente, penso que nós podemos estar no caminho certo”, assinala.
Laurito Porto Lira, diretor de Formação e presidente eleito do Sindicato dos Bancários de Londrina e Região também compareceu ao protesto. Ao Portal Verdade, a liderança que toma posse no próximo dia 15 de maio, compartilha que, devido ao atual cenário marcado por crescentes ofensivas contra direitos trabalhistas, esperava uma maior mobilização, ainda assim, ele avalia que a manifestação atendeu às expectativas.
“É ótimo ver que todos os ramos e centrais estão construindo um diálogo permanente de pautas unificadas, pois sempre foi a união dos trabalhadores e a defesa dessas pautas históricas que trouxeram as grandes conquistas de direitos aos trabalhadores. Esses são passos que precisam ser dados para recuperar cada vez mais o poder de organização e mobilização dos trabalhadores para sairmos desse momento histórico que é mais defensivo para um próximo de conquistas”, afirma.
No período da manhã, os manifestantes participaram de plenária para atualização da pauta da classe. Representando o governo federal, participaram da reunião, os ministros do Trabalho, Luiz Marinho, e da Secretaria-Geral da Presidência da República, Márcio Macêdo.
As discussões retiradas durante a plenária foram entregues ao presidente Lula (PT) e aos presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), do STF (Supremo Tribunal Federal), Luís Roberto Barroso, e do TST (Tribunal Superior do Trabalho) , Aloysio Corrêa da Veiga.
O documento apresenta 26 reivindicações e proposições que são prioridades do movimento sindical em 2025. Quatro delas foram destaque: a redução da jornada de trabalho sem redução salarial; o fim da escala 6 x 1; a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil e a taxação dos super-ricos.
Lira indica que a reforma sindical, o fortalecimento de serviços voltados à prevenção e atendimento de saúde do trabalhador, a isenção do Imposto de Renda sobre a PLR (Participação nos lucros ou Resultados) também são solicitações que devem ser aprofundadas.
Atualmente, a PLR de até R$ 7.640 é isenta de Imposto de Renda. Acima desse valor, incide a tabela progressiva de 7,5% a 27,5%. Pela proposta dos sindicatos, apresentada ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad em março último, o Imposto de Renda deixaria de incidir sobre qualquer valor.
Santos pontua que o rechaço à tentativa de anistiar os envolvidos da trama golpista de 2022 e o apoio ao deputado Glauber Braga (PSOL) também foram sinalizados pelos trabalhadores.
A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados rejeitou na última terça-feira, por 44 votos a 22, o recurso apresentado pelo deputado Glauber Braga contra a decisão sobre o processo de cassação de seu mandato no Conselho de Ética.
Com a rejeição, o processo seguirá para análise do plenário, onde deve ser pautado no prazo de 60 dias. A ação no Conselho de Ética contra Glauber foi apresentada pelo Partido Novo. Glauber é acusado de empurrar e expulsar um integrante do MBL (Movimento Brasil Livre) do Congresso Nacional.
“O Glauber é bom para nós também é bom para o país. Nós temos que trabalhar com muito afinco em 2026, nossas entidades sindicais e centrais para não deixar a extrema-direita eleger tanto deputado federal como elegeu dessa vez”, observa.
A implementação da Política Nacional de Cuidados, que reconhece o cuidado como um trabalho e como um direito, também é uma das reivindicações da pauta da classe trabalhadora.

Servidores públicos e a PEC 32
Ainda, de acordo com Santos, as entidades que representam o funcionalismo público, discutiram os impactos da PEC 32/20, de autoria do poder Executivo. Também conhecida como Reforma Administrativa, a medida visa alterar as regras de contratação de servidores públicos, incluindo a possibilidade de admissão por meio da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
“A nossa maior preocupação hoje, que é uma questão que ela se expande, inclusive, para as três esferas de governo, União, estados e municípios, que é a questão da PEC 32, da Reforma Administrativa”, reforça.

Bancários
Segundo Lira, a isenção do Imposto de Renda sobre a PLR é a principal demanda que contempla os bancários. “Também temos a correção da tabela do Imposto de Renda, o combate à desigualdade no mundo do trabalho que visa combater o machismo, racismo, etarismo e tantas outras formas de discriminação”, acrescenta.
Uma das principais exigências dos trabalhadores do ramo financeiro é a imediata implementação da Lei da Igualdade Salarial (Lei nº 14.611/2023), estabelece a obrigatoriedade de que empresas com 100 ou mais funcionários publiquem relatórios de transparência salarial para garantir a igualdade de remuneração entre homens e mulheres em cargos idênticos.
Diálogo com os três poderes
No período da tarde, durante reunião fechada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva evidenciou a importância de as centrais sindicais intensificarem sua presença nas ruas, retomando o papel histórico de mobilização social. Ele ressaltou que a participação dos trabalhadores é fundamental para a consolidação das políticas públicas.
O chefe do Palácio do Planalto também destacou a importância de os sindicatos se adaptarem às mudanças no mundo do trabalho, especialmente, diante do crescimento do trabalho informal e das plataformas digitais.
Por outro lado, Lira ressalta a dificuldade de diálogo com o Congresso Nacional, de perfil mais conservador nesta última legislatura. Ainda, ele evidencia a atuação do poder Judiciário que tem tomado uma série de decisões que fragilizam ainda mais garantias trabalhistas, a exemplo do recente posicionamento favorável à pejotização declarado por Gilmar Mendes, ministro do STF (Supremo Tribunal de Justiça).
“No Legislativo temos resistência, afinal, o Congresso Nacional não é um espaço que possui representantes da classe trabalhadora para entender nossas necessidades e nem temos um bom número para buscar aprovação das nossas pautas. No Judiciário se olharmos principalmente o STF se olharmos as últimas decisões, pode-se perceber que eles estão promovendo uma nova reforma trabalhista e prejudicando os direitos dos trabalhadores. Assim, nossos articuladores terão um trabalho muito duro nesse diálogo para defender as nossas pautas”, adverte.
As Marchas da Classe Trabalhadora são realizadas desde 2004 e, ao longo dos anos, contribuíram para importantes conquistas, como a política de valorização do salário-mínimo e a aprovação da Lei da Igualdade Salarial entre homens e mulheres, entre outros avanços.
“A diretriz das centrais para os sindicatos agora e fomentar o debate junto à base de trabalhadores e trabalhadoras, neste primeiro momento e buscar dar corpo para que a ‘opinião pública’ seja a favor das pautas para criar a comoção nos atores políticos para conquistarmos a realização das ações que irão concretizar a entrega dos nossos pedidos”, finaliza Lira.

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Doutora em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero; religião; política e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast independente sobre política na perspectiva de mulheres.












