Na casa de uma senhora, cujo filho foi executado pela polícia, um grupo de mães se organiza por justiça. Em uma pista de skate na zona sul, jovens se reúnem para batalhas de rima, transformando indignação e sonho em expressão. Na Universidade, se produz conhecimento e afeto que questionam as violências cotidianas.
Nas vilas culturais, grupos e companhias experimentam, reinventam, provocam. Nos sindicatos, trabalhadores se organizam por uma realidade mais justa. Nas esquinas, no asfalto quente, nas ocupações, nas festas da quebrada, pulsa uma cidade que insiste em não caber nas gavetas do conservadorismo.
É claro que Londrina também é feita dos olhares atravessados, das violências naturalizadas, das urnas que rotineiramente dão maioria para projetos autoritários. É a cidade em que travestis ainda lutam para conseguir um emprego formal, em que corpos dissidentes seguem sendo alvo de exclusão e chacota. É a cidade onde o conservadorismo marca presença, não apenas nos discursos, mas nos gestos pequenos do cotidiano.
Mas reduzir Londrina a isso é uma injustiça. É fingir que essa outra cidade, a que resiste, a que cria, a que sonha com futuros melhores, não existe. Mas existe.
Londrina é contradição, como toda cidade. É repressão e é resistência. É exclusão e é encontro. É conservadorismo, sim, mas também é trabalhadores organizando sua luta, juventudes inventando novas linguagens, artistas ocupando ruas e festivais, gente comum que se recusa a aceitar o silêncio.
Não podemos esquecer que Londrina tem uma história marcada por resistência. Das mobilizações estudantis desde a ditadura às ocupações culturais. Dos movimentos populares que lutaram por moradia aos coletivos que, ainda hoje, se levantam contra a violência policial. Sanitaristas que estiveram no fronte da luta pela construção do SUS e assistentes sociais protagonistas do processo de criação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Essa memória viva não pode ser apagada pela narrativa única de que “aqui tudo é conservador”.
Dizer que Londrina não é conservadora é reconhecer que também somos cidade. Que não somos um detalhe menor no retrato urbano, mas parte fundamental de sua paisagem. Somos as travestis que batalham por dignidade, as juventudes periféricas que questionam a violência, as artes que se espalham pelo centro e pela periferia, os encontros que se fazem mesmo quando tentam nos calar.
Quando afirmamos isso, não negamos o conservadorismo, mas escolhemos não reduzir a identidade de nossa cidade. Não aceitemos a simplificação que só serve para apagar nossa presença. O que está em jogo é o direito à cidade: direito de existir, circular, ocupar, viver.
Londrina não é deles. Londrina também é nossa.
Não devemos negociar esse direito. Devemos exerce-lo, afirmando mais uma vez e quantas mais for necessário: Londrina não é uma cidade conservadora.
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Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.











