Eu queria dizer que fiquei surpresa. Mas não fiquei. O que me atravessou quando li que Lula sancionou uma lei proibindo a linguagem neutra não foi choque. Foi mais parecido com uma dor antiga, conhecida. A sensação de que, quando o assunto somos nós, pessoas trans e não binárias, o Estado acaba mostrando qual é o limite da sua vontade política de inclusão.
Me sinto decepcionada sim. E muito. Há anos tenho dedicado minhas pesquisas e ativismo em torno das formas de desbinarização da linguagem e das tentativas de proibição. E não estou sozinha. Ver esse governo dito de esquerda simplesmente ignorando o trabalho de centenas de pessoas, passando por cima dos movimentos sociais de pessoas não binárias, ignorando nossas vidas e formas de expressão, é terrível.
Mas não é surpresa total. O presidente Lula sempre coabitou com a conciliação. É um governo de coalizão e muitas decisões políticas evidenciam que essa conciliação implica preservar certas estruturas, como a cisnormatividade. Isso nos lembra que não se trata de uma questão puramente “ideológica”, da extrema-direita: é pragmático, institucional.
A política de “linguagem simples”, segundo a justificativa oficial, visaria tornar os documentos do Estado mais acessíveis, com frases curtas, termos comuns, estrutura direta. Essa proposta, por si só, seria muito importante para ampliar o acesso à informação. Mas a escolha de proibir a linguagem não binária revela que “simples” para este governo não significa, necessariamente, inclusivo.
O Estado está dizendo: “sim, vamos simplificar para todas as pessoas, menos para vocês”. Isso nos relembra como o sistema é cisnormativo. Foi este Estado que historicamente consolidou a violência contra as populações dissidentes, a ideia de que “não existimos”. Essas diretrizes orientam ainda a maneira como se pensa a comunicação oficial, quem pode discursar sem risco, o que é considerado “vocabulário legítimo”.
Mas eu tenho esperança. Uma esperança que está em nós. Está na força da auto-organização de pessoas trans e não binárias, está nas redes, nas comunidades. Nossa luta não é só para que o Estado aceite “todes”: é para que possamos continuar construindo linguagens nossas, que nos permitam existir do jeito que somos, mesmo que fora dos limites da cisnorma.
A proibição estatal é só mais um lembrete de que somos minoria, mas somos resistência. E talvez seja justamente esse tipo de lei que mostre para o mundo que nossa resistência é urgente, necessária e, sobretudo, inadiável.
Nós não precisamos do Estado para validar nossas vidas. Mas precisamos continuar falando, como sempre fizemos, independente de autorização. E é nessa conversa viva que, de fato, podemos começar a esvaziar a cisnormatividade, palavra por palavra.
Se para existirmos precisamos praticar desobediência civil, isso não será novidade para nossas populações. Iremos desobedecer. Vamos seguir colocando “não binárie” em registros civis; continuaremos saudando a todes em todos os espaços públicos e eventos oficiais, cada vez mais; vamos inserir em cada cadastro, cada formulário, cada documento e comunicação. Terão que nos engolir, porque não vamos retroceder.
Podemos contar com você?

Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.











