Michelle Bolsonaro subiu a um púlpito recentemente para afirmar que não faz sentido LGBTs votarem em Lula, porque ele representaria “um governo que mata homossexuais”. Um papo desonesto e difícil de engolir, uma inversão grotesca e nojenta.
Nós sabemos a realidade: foi no governo Bolsonaro que a violência contra pessoas LGBTI+ se intensificou, especialmente contra a população trans. Foi nessa época que frases como “agora é Bolsonaro” viraram ameaça, autorização de violência contra nossos corpos.
Os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública não nos deixam mentir: 167 assassinatos em 2020, 179 em 2021. São pessoas. São histórias.
Não são apenas números, são nosses amigues, irmãos, irmãs, irmanes, pessoas como nós. O sentimento de que o perigo mora na esquina.
E o governo fez o quê? Nada. Ao contrário, desmontou conselhos, apagou políticas públicas, transformou a nossa existência num espantalho para ganhar voto. Lembra do falso “kit gay” apresentado no Jornal Nacional dias antes da eleição? Sem aquilo Bolsonaro nunca teria sido eleito. Ele chegou ao poder mentindo sobre nós para causar pânico. Nos usando como arma eleitoral. Dizendo que preferia “um filho morto do que um filho viado”.
Agora, diante do desespero e desgaste da imagem de Bolsonaro, surgem tentativas desesperadas de ressignificação, de mentir novamente. Vemos Damares Alves, a mesma ministra que repetia que “menino veste azul e menina veste rosa”, dizer em podcast que “se identifica muito com as travestis” e até defender cotas trans.
E ela ainda tem a cara de pau de dizer que Bolsonaro chorou ao ver uma pesquisa sobre violência contra nossas populações. Chorou? A gente chorou enterrando es nosses. A gente chorou sentindo o corpo tremer toda vez que ouvia alguém gritar o nome dele como ameaça.
Por isso eu digo: memória é resistência.
A gente não pode permitir que apaguem o que aconteceu, que reescrevam a história como se não tivéssemos cicatrizes – como já tentam fazer com a Ditadura Militar. A gente carrega no corpo e na alma as marcas do governo mais hostil à população LGBT desde a redemocratização.
O governo Lula pode falhar, e será sempre cobrado quando o fizer. Mas há uma diferença fundamental: Lula criou uma secretaria específica no Ministério de Direitos Humanos sob a gestão da ativista Simmy Larrat, está bancando a Conferência Nacional de Direitos da População LGBTI+, nomeou lideranças históricas como Toni Reis para o Conselhão da Presidência, para ter alguns exemplos. Isso não apaga desafios, mas marca uma diferença de quem pelo menos nos reconhece como sujeitos de direitos.
Lembrar é resistir.
Resistir é impedir que nossos familiares, amigues e amores caiam na ladainha daqueles que nos atacaram e agora querem posar de defensores. Estes sujeitos não estão e nunca estiveram do nosso lado.
Estamos de olhos abertos. Não esqueceremos.
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Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.











