Maioria dos vereadores aprovaram requerimento tentando proibir jogo em virtude da participação da jogadora, que é transexual
Na última sexta-feira (27), representantes da Frente Trans de Londrina juntamente com a ONG D.O.C.Ê homenagearam a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco São Cristóvão Saúde.
Ao chegar em Londrina, para partida da Copa Brasil Feminina de Vôlei, Tiffany foi recebida por integrantes dos coletivos que entregaram uma carta de reconhecimento à sua trajetória e um buquê de flores.
A ação aconteceu após tentativa da Câmara Municipal de Londrina de proibir a realização da competição na cidade em virtude da participação de Tiffany, que é transexual.
Na quinta-feira (26), os parlamentares aprovaram com 12 votos favoráveis, um requerimento cobrando a aplicação da Lei Municipal nº 13.770. Aprovado em 2024, o texto proíbe a participação de atletas com identidade de gênero diferente do sexo biológico em competições disputadas em espaços municipais.
Considerada transfóbica e inconstitucional pela Comissão de Constituição e Justiça da própria Casa, a legislação não foi sancionada pelo Executivo, mas acabou promulgada pela Câmara.
Ursula Brevilheri, cientista social, doutoranda em Sociologia na UEL (Universidade Estadual de Londrina) e integrante da Frente Trans de Londrina, pontua que a homenagem teve como principais motivações o acolhimento e a valorização da história da atleta, que tornou-se uma referência para a comunidade trans.
“Para pessoas trans, que muitas vezes crescem sem referências positivas no esporte ou em outros espaços públicos, a trajetória da Tifanny é muito inspiradora. E nós queríamos traduzir isso em um gesto, de forma simples, de forma humana, dizer para ela que não está sozinha. Dizer que a presença dela é importante e que ela é admirada por seu trabalho e talento. Também sentimos que em um momento de tanta tensão pública era fundamental a gente oferecer esse gesto de acolhimento”, indica.
Paraense, Tiffany foi a primeira atleta transexual a disputar uma partida da Superliga, principal torneio do país.
Ursula ressalta a importância do encontro, denunciando a violência, mas também confrontando-a com o afeto e cuidado. “São em momentos como esse que a gente sente, talvez mais do que nunca, que a nossas lutas não são abstratas ou vazias. Elas são feitas de pessoas reais, de trajetórias, de encontros. E ali, naquele momento, conseguimos transformar tensão em carinho, em reconhecimento”, afirma.
“Ela [Tiffany] foi muito gentil e parecia muito feliz. Foi um gesto simples, sem grandes formalidades, mas muito sincero. Deu para sentir que ela entendeu o significado desse gesto. Parecia que ela entendeu, sentiu esse carinho que queríamos transmitir, e isso nos deixou muito felizes também”, acrescenta.
A legislação mencionada pelos vereadores tem sido alvo de críticas por conta da redação considerada ampla e controversa. Entre as inconsistências, a Lei confunde identidade de gênero e orientação sexual, proibindo, tecnicamente, a participação de todas as pessoas – transgênero, cisgênero e não binário – em competições esportivas.
Diante da controvérsia, a CBV (Confederação Brasileira de Voleibol) recorreu ao STF (Supremo Tribunal Federal) para garantir a realização da competição e a participação regular da jogadora, argumentando que ela atende às normas estabelecidas pelas entidades esportivas.
Uma decisão liminar emitida pela ministra Carmem Lúcia reforçou que o município não poderia impedir a realização dos jogos nem a atuação da atleta, assegurando que a Copa Brasil acontecesse na cidade.
Em medida cautelar, a ministra alertou para a necessidade de uma análise mais aprofundada da legislação local, que pode configurar um “retrocesso nas políticas de inclusão social, de igualdade de gênero e de promoção da dignidade humana, desenhadas no Brasil nas últimas décadas”.
Judicialização de direitos básicos
Ursula classifica como “triste e preocupante” ter que recorrer às instâncias mais altas do sistema de justiça para defender direitos básicos.
“A grande maioria dos direitos de pessoas LGBT em geral, não somente pessoas trans, só é garantida no Brasil por decisões judiciais, enquanto o nosso poder legislativo segue muitas vezes se negando a produzir leis que protejam nossas vidas e direitos”, assinala.
A pesquisadora reforça que a atuação da Corte, entre outras frentes do Poder Judiciário, tem sido pautada pela reação a projetos excludentes, que visam cercear direitos fundamentais.
“Desde a união homoafetiva até a criminalização da homotransfobia, são sempre situações de descaso e omissão das câmaras legislativas que nos levam para essa via. E nesse sentido como é bom que pelo menos a justiça consiga estabelecer garantias como essas. Isso nos lembra da importância de instituições como essa no Estado de Direito”, adverte.
Ela compartilha a expectativa de que garantias essenciais não dependam mais da “judicialização” para que se efetivem.
“O conflito é algo esperado na democracia, mas os próprios valores democráticos priorizam a dignidade e a não discriminação. O ideal é que, no futuro, o reconhecimento de pessoas trans como seres humanos não precise mais ser judicializado”, observa.
Em 2015, o COI (Comitê Olímpico Internacional) atualizou suas diretrizes, permitindo a participação de mulheres trans sem exigir cirurgia de redesignação sexual, contanto que mantivessem a testosterona abaixo de 10 nmol/L por pelo menos um ano.
Porém, desde 2003, a entidade argumenta que reconhece a importância da autonomia da identidade de gênero na sociedade, levando a modificações nas legislações de diversos países.
Atletas transexuais podem competir, inclusive, nas Olimpíadas, segundo o regulamento vigente.

Representatividade
Ursula evidencia que acompanhar uma representante da comunidade trans desempenhando um papel de destaque é crucial para tensionar o frequente cenário, no qual a população trans é alvo de estigmas e múltiplas violências.
“Foi muito emocionante e bonito. A Tifanny é uma atleta exemplar em vários sentidos. E a gente está acostumade a ver notícias sobre pessoas trans apenas associadas à violência ou à exclusão. Então ver uma mulher trans em quadra, jogando, trabalhando, e até marcando pontos decisivos no jogo, é ver diretamente a diminuição do poder da transfobia”, aponta.
“É uma mistura de simbólico e concreto. É simbólico porque rompe com a ideia de que pessoas trans devem sempre existir às margens, que não podemos ocupar espaços. E é concreto porque mostra na prática que pessoas trans trabalham, treinam, competem e constroem carreiras, não somente atletas cisgênero. É uma ampliação do imaginário das pessoas, cis e trans. Meninas trans, por exemplo, passam a se ver em outros futuros possíveis. E isso muda vidas”, complementa.
No último sábado (28), com jogo acirrado no Moringão, o Osasco São Cristóvão Saúde venceu o Gerdau Minas por 3 sets a 1, tornando-se o grande campeão da Copa Brasil de Vôlei Feminino pela quinta vez.
Em entrevista, após a partida, Tifanny clamou pela luta contra “a homofobia, racismo e qualquer tipo de preconceito”. A atleta mencionou ainda que, com o título, o Osasco vai buscar a vitória no Sul-Americano de Clubes 2027, além da participação garantida na Supercopa.
“Não é sobre romantizar a realidade, é lembrar que nós, pessoas trans, existimos em todas as dimensões da vida social. Ver a Tifanny jogando é sim um momento de alegria, mas sobretudo de esperança. Uma vitória em meio às lutas para construir uma sociedade menos desigual”, conclui Ursula.
Acompanhe na íntegra carta entregue à jogadora:
Querida Tifanny,
Escrevemos esta carta em nome da Frente Trans de Londrina e da ONG D.O.C.Ê., com carinho e admiração. Queríamos que você soubesse que sua presença em nossa cidade é motivo de alegria e orgulho para muitas pessoas, especialmente para quem cresceu sem referências de mulheres trans ocupando espaços com dignidade e reconhecimento.
Sua trajetória no voleibol é admirável por si só: anos de treino, disciplina, dedicação e amor ao esporte. Mas ela é também algo maior. Para muitas de nós, ver você em quadra é enxergar possibilidades que antes pareciam distantes. É lembrar que nossos sonhos não precisam caber nos limites que o mundo tentou nos impor.
Cada ponto que você marca, cada jogo que disputa, cada vez que seu nome aparece na escalação, você abre caminhos. Meninas e jovens trans olham para você e pensam: eu também posso. Isso é poderoso demais para caber em palavras.
Sabemos que a caminhada nunca é simples. Ser mulher trans no Brasil exige coragem cotidiana. Mesmo assim, você segue trabalhando, treinando, jogando, vivendo, e isso inspira uma comunidade inteira que muitas vezes precisa de esperança para continuar.
Queríamos te dizer que você não está sozinha. Em Londrina, há pessoas que torcem por você não apenas como atleta, mas como mulher, como profissional e como símbolo de perseverança. Receba nossa solidariedade, nosso respeito e nossa gratidão por tudo o que sua presença representa.
Que você sinta, onde estiver, o abraço coletivo de quem encontra em você uma referência de força e beleza.
Com carinho,
Frente Trans de Londrina
ONG D.O.C.Ê.

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Doutora em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero; religião; política e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast independente sobre política na perspectiva de mulheres.












