Mulheres cis deixam pelos crescer e é um gesto político, uma afronta ao patriarcado, um recado para o mundo de que elas não vão ser domesticadas. Quando é no corpo delas, é rebeldia. Quando é no meu, é “mais uma prova”. Prova do quê? Para eles, prova de que “na verdade sou homem”. Para nós, prova de que aquela velha ficção da cisnorma ainda tem fiéis demais.
Não deixa de ser irônico, se a gente for pensar. Um corpo cis pode rejeitar o padrão e continuar sendo reconhecido como corpo cis. Um corpo como o meu desvia um milímetro, aquele único milímetro, e já se torna argumento. Já vira desconfiança. Eu deixo de ser gente e passo a ser uma tese que alguém pode refutar. Como se tivesse alguma comissão avaliadora escondida em cada esquina, pronta para decidir quem passa e quem não passa na prova do que é ser homem e o que é ser mulher.
E o que mais cansa é que não é sobre pelos em si, nunca foi. É sobre o olhar. O olhar que vigia. O olhar que determina um “jeito certo” de ser. O “jeito certo”, claro, sendo o jeito cis. Um corpo cis é até autorizado a brincar com suas fronteiras. O meu, não. As minhas fronteiras não podem ser brincadas, não podem ser borradas. Se eu atravesso essas fronteiras, imediatamente sou empurrada de volta para a caixa que sempre tentam me colocar: “só um homem que se veste de mulher.”
Aí que eu percebo uma coisa que parece tão óbvia agora, mas que leva tempo para nós, pessoas trans, entendermos: o corpo cis não é nossa referência. Não porque eu rejeite quem essas pessoas são, mas porque eu não quero que o parâmetro da minha existência seja um corpo que não é o meu. Não quero que a medida da minha legitimidade seja o outro. Não quero que a minha autonomia dependa de imitar uma forma que nunca me pertenceu.
Corpos cis não são referência para mim. Não deveriam ser referência para ninguém que vive entre frestas, rachaduras, desvios. Não porque não haja beleza nos corpos cis. Há. Mas porque assumir estes corpos como modelos é só outra maneira de nos domesticar. Provavelmente todes nós, pessoas trans, já tentamos caber, nos moldar para satisfazer expectativas que não foram feitas para nós. E podemos dizer com toda a honestidade do mundo: é impossível. E mesmo que fosse possível, seria uma violência, de novo, contra nós.
Não estou dizendo a quem deseja alterar o corpo, hormonizar, operar, ajustar, lapidar, que isso seja falso ou inadequado. Ao contrário: cada gesto sobre o corpo é parte da narrativa da própria pessoa que o habita. O que eu estou dizendo é outra coisa: nenhum corpo deveria ser obrigado a seguir um roteiro que não escreveu. E muito menos ser vigiado por uma plateia que acha que entende mais sobre nós do que nós mesmes.
Saber que eu não preciso parecer uma pessoa cis me faz respirar melhor. Me dá espaço e me devolve para mim. E vejam o surgimento de uma nova liberdade: essa liberdade de existir sem pedir autorização estética. De aceitar que minha relação com o meu corpo é minha, cheia de contradições, cheia de dias bons e dias em que a lâmina fica esquecida, e dias em que eu simplesmente não tenho vontade de ser a imagem que esperam de uma pessoa chamada Ursula. E tudo isso está certo. Tudo isso está vivo.
Eu tenho uma hipótese do porquê de isso assustar tanto: corpos como o meu desmontam o mito de que existe uma única forma de ser. Mostram que a verdade do gênero sempre foi uma ficção coletiva e que algumes de nós aprenderam a escrever margens novas. É por isso que nos vigiam tanto. Porque se a gente consegue existir sem imitar o molde, então o molde perde o poder.

Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.











