As pessoas hoje falam muito em polarização na política, ou que ela virou uma luta somente entre a “esquerda e direita”, porém a disputa de conceitos e ideias é bem mais antiga do que isso. Desde o nascimento dos estudos sobre a vida social dos seres humanos, as discussões sobre como a vida coletiva é organizada e qual deveria ser o ideal de organização dessa coletividade mostraram que existe uma disputa entre dois campos ou, melhor dizendo, dois grupos.
Na Antiguidade, a tensão girava entre o “povo” e a “aristocracia”, ou entre a monarquia e a tirania; a disputa política girava ao redor da busca pela igualdade versus a manutenção de privilégios. Nesse contexto, cada lado via o outro como a encarnação da corrupção e da injustiça a ser combatida.
Com a Idade Média chegando até a Revolução Francesa, o embate ocorreu entre o Rei e a corte, e entre o Rei e a Igreja, colocando no centro do debate quem teria o direito de governar o território. Neste período, a disputa da Coroa era contra aqueles que queriam questionar o seu “direito divino” sobre o domínio das terras e seus recursos. Surgiu aqui o elemento sagrado na disputa, e os opositores eram tratados como “hereges” que desafiavam a vontade de Deus.
Embora existissem revoltas camponesas, elas foram frequentemente utilizadas pelos Reis para minar o poder dos nobres e da Igreja. Para garantir o seu direito de governar e centralizar o poder, o Rei percebeu que precisava de recursos que a nobreza não oferecia. Ele encontrou na “burguesia” — o grupo de mercadores, artesãos e comerciantes que viviam fora do sistema feudal — o parceiro ideal.
O Rei oferecia proteção e leis que facilitavam o comércio e, em troca, a burguesia financiava o Estado e as guerras reais. Entretanto, essa relação também entrou em crise, atingindo sua expressão máxima na Revolução Francesa. Nesse momento, a burguesia decidiu não mais financiar a monarquia, tomando o poder sob a máscara da “liberdade”. Ficava exposto, então, o que chamamos modernamente de “conflito de classes”.
Emerge, assim, a disputa entre os conservadores (que buscavam manter privilégios antigos e a tradição) e os liberais (defensores de uma nova ordem baseada na propriedade e no livre mercado). Foi dentro da Assembleia Nacional francesa que surgiu a nomenclatura de “direita” e “esquerda”: os Girondinos (conservadores) sentavam-se à direita do presidente, enquanto os Jacobinos (liberais) ocupavam o lado esquerdo.
Esse cenário determinou o maniqueísmo que passaria a definir a política moderna como a disputa entre direita e esquerda, ou seja, o embate entre dois grupos de pensamentos políticos diferentes.
Porém, a vitória burguesa contra a monarquia trouxe uma nova contradição. Os avanços da Revolução Industrial inundaram as cidades com uma nova massa de sujeitos: o proletariado, composto por camponeses e artesãos transformados em operários de máquinas dentro das fábricas. O discurso de “liberdade” usado pela burguesia contra o Rei transforma-se em defesa do livre mercado e da propriedade plena, ou seja, a liberdade passa a ser o liberalismo, instrumento de exploração desse exército de pessoas que veio sem nada para a cidade atrás de uma maneira de sobreviver.
A partir da metade do século XIX, os debates sobre a necessidade de reformas sociais — como a redução da jornada de trabalho, o fim do trabalho infantil e a garantia de condições dignas de vida — deram urgência ao um novo maniqueísmo sociopolítico. Tais mudanças tornaram-se importantíssimas para a própria sobrevivência do sistema.
Neste cenário de tensões, Marx e Engels denunciaram que a “igualdade” do discurso liberal era apenas letra morta no papel. Os conservadores já não defendem mais o trono e o altar, mas sim a exploração do povo por donos de fábricas e banqueiros.
A disputa não era mais sobre quem governa o território, mas sobre quem fica com a riqueza produzida pelos trabalhadores. Com isso, a burguesia trocou seu discurso revolucionário da liberdade pela bandeira da “ordem e progresso”.
Ao entenderem que a igualdade não existia na prática, os trabalhadores passaram a se organizar em coletivos, associações e sindicatos, não apenas para lutar por salários, mas para disputar o conceito de progresso. No cenário atual, o maniqueísmo sociopolítico tenta reduzir essa luta a uma simples escolha entre cores ou siglas, escondendo o conflito real: a repartição do lucro gerado pelo trabalho e a humanização das relações de trabalho.
Hoje, mais do que nunca, os sindicatos e organizações coletivas são necessários para transformar o “nós contra eles” em planos de ação concreta. Reformas sociais, saúde mental no trabalho e equidade são temas no centro desta disputa milenar que começou nos burgos (cidades da Idade Média), passou pelas barricadas de Paris (Comuna de Paris) e hoje é a luta diária para que o trabalhador não seja sacrificado no altar do “mercado”.
O maniqueísmo na política só é superado quando o trabalhador compreende o seu lado nesta batalha e deixa de ver a política como um espetáculo de ideias abstratas, encarando-a como a ferramenta definitiva de transformação da vida real.

Laurito Porto de Lira Filho
Laurito Porto de Lira Filho, formado em Educação Fisica pela UEL, é uma figura do movimento sindical do Paraná, atuando como Presidente do Sindicato dos Bancários de Londrina e Região. Funcionário do Banco do Brasil, coordena o coletivo dos funcionários do Banco do Brasil na Região de Londrina e integra o Coletivo de Formação Sul da CUT, consolidando sua trajetória na defesa dos direitos trabalhistas e na formação política.
Sua atuação social estende-se à saúde pública, onde é conselheiro de saúde em Londrina e atualmente está na comissão organizadora da Conferência Municipal de Saúde de Londrina. Para além da militância, Laurito é um entusiasta da fotografia em preto e branco e do cinema conectando sua visão de mundo ao pensamento de filósofos sociais e à valorização da equidade e da saúde mental através do cinema na parceria com o PET-SAÚDE/UEL no Cine Equidade.












