É verdade que a gente vive um déficit de produção de dados sobre as populações trans, travestis, transmasculinas e não binárias no Brasil e no mundo. A ponto de que a informação que temos sobre nossa expectativa de vida de 35 anos é tão somente uma estimativa, da mesma forma como há uma imensa dificuldade de produção de estatísticas sobre as violências contra nossos corpos.
O próprio Estado e instituições muitas vezes se recusam a registrar e reconhecer os acontecimentos, as agressões, as violações aos nossos direitos e vidas. Do atendimento mais básico aos máximos órgãos representativos, sues agentes acham que “não tem nada a ver” e sues parlamentares não veem problema em legislar excluindo nossas existência, ativamente desconsiderando-as.
Neste sentido, é fato que o movimento de uma pessoa cis se interessar por produzir pesquisas sobre pessoas trans pode ser lido, por si só, como algo subversivo. Mas isso não significa que tais pesquisadories estejam isentes de contradições e até da possibilidade de revitimizarem a população trans em seus estudos, produzindo novas formas de violência. Este é o ponto que quero abordar.
Em diferentes conversas com amigues, de Londrina mas também de vários outros lugares, pessoas trans como eu, é extremamente comum a descrição de um evento que parece ocorrer com todes nós não apenas uma, duas ou três vezes, mas variadas: a aproximação de uma pessoa cis desejando estudar nossas questões, vivências e atravessamentos, geralmente para a produção de um Trabalho de Conclusão de Curso, Dissertação ou Tese. Isso parece até nobre, em um primeiro momento, diante da posição histórica da ciência tratar nossos corpos como “exóticos” ou simplesmente ignorá-los.
O problema vem depois: compartilhamos nossas vidas e dificuldades com tais pessoas, elas se beneficiam de nossas histórias, recebem suas notas, diplomas e reconhecimento, e simplesmente nos esquecem. Mais uma vez não me refiro a situações pontuais, mas a um comportamento reiterado que temos visto, no mínimo, algumas pares de vezes por ano.
Não venho nem cobrar “coerência” em sua escrita, pesquisadore cis. Ao menos não neste instante. Reivindico, mas não necessariamente confio e espero, que você utilize referencias trans, que problematize a cisnormatividade ou ofereça respostas para nossos atravessamentos. Vocês nunca se preocupam com isso, quem faz é uma raríssima exceção.
O que peço neste instante é que lembrem de nós. Não usufruam de nossas vidas, produzam seus dados e desapareçam. Considerem uma contrapartida para seus sujeitos de pesquisa, nem que simbólica. Retornem a elus, estabeleçam contato, apresentem o produto de sua pesquisa. Não se interesse por nós somente quando é conveniente para sua produção.
Por último, não se ofendam ou achem que é pessoal quando não quisermos responder seus questionários. Trata-se de uma crítica sistêmica, não direcionada a alguém. Muitas vezes só estamos cansades e calejades de mais do mesmo.
Mas me manda então esse estudo aí para eu dar uma olhada…

Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.











