Trabalhadores atacados precisaram receber socorro médico
Na manhã desta quarta-feira (4), o vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Curitiba e Região Metropolitana, Nelsão da Força, foi detido durante manifestação em frente à fábrica da Brose, em São José dos Pinhais.
Conforme imagens, os policiais militares agiram com truculência, chegando a aplicar um “mata-leão” para imobilizar o sindicalista, que não reagiu e caiu no chão. Ainda, os agentes foram filmados espirrando spray de pimenta no rosto dos manifestantes, incluindo mulheres.
Os trabalhadores da Brose deflagraram greve no último dia 28 de janeiro reivindicando melhoria salarial e benefícios.
De acordo com o Sindicato, os trabalhadores da empresa recebem aproximadamente R$ 2,5 mil, vale-mercado de R$ 500 e não possuem PLR (Participação de Lucros e Resultados).
Os funcionários cobram correção salarial pelo INPC (Índice de Preços ao Consumidor) acrescido de 2,5% de aumento real, além da equiparação do vale-mercado às empresas do segmento e implantação de PLR.
Ainda segundo o Sindicato, há uma grande discrepância entre os valores pagos pela Brose e outras empresas do ramo. A entidade também informou que desde o início da mobilização, a Brose tem adotado diversas práticas antissindicais como assédio, pressão e a tentativa de utilizar a Polícia Militar para desmotivar os trabalhadores.
“Trabalhadores estavam reivindicando, de forma legítima e democrática, melhores condições de trabalho e salário, quando foram, simplesmente, atacados pela polícia. O ataque evidencia as práticas antissindicais promovidas pela Brose. Trabalhadores estão sofrendo pressão e assédio desde o início das mobilizações. O Sindicato tem tido dificuldade para realizar assembleias devido a frequente intervenção policial”, apontou o Sindicato.
Para tentar enfraquecer o movimento grevista, a empresa estaria admitindo trabalhadores temporários por salário abaixo do mercado, cerca de R$ 1,9 mil. O Sindicato comunicou que já acionou seu jurídico para denunciar a empresa à Justiça.
Em nota, o Setorial Sindical do Partido dos Trabalhadores do Paraná repudiou o uso de força. “Não é papel da Polícia Militar, em hipótese alguma, o uso da força e da violência contra trabalhadores que estão exercendo seu direito legítimo de greve e manifestação. Essa truculência, além de ilegal em um estado democrático de direito, demonstra total despreparo e tentativa torpe de criminalização dos trabalhadores”, afirmou a sigla.
A corporação alegou que Nelson teria desacatado policiais, versão que é contestada pelos trabalhadores. “O indivíduo não acatou a ordem policial para liberação da entrada, motivo pelo qual recebeu voz de prisão pelos crimes de Desacato, Atentado contra a Liberdade de Trabalho (Artigo 197 do Código Penal) e Resistência à Prisão”, comunicou a Polícia Militar.
De origem alemã, a Brose é uma das maiores fornecedoras automotivas privadas do mundo. Especializada em mecatrônica, desenvolve sistemas inteligentes para portas, assentos, motores elétricos e componentes de arrefecimento e ventilação para veículos.
A redação entrou em contato com a Brose pedindo um posicionamento sobre as declarações e aguarda retorno.
Apesar dos ataques, os trabalhadores continuam mobilizados, com a greve completando cinco dias nesta quinta-feira (5).
Confira na íntegra nota emitida pelo Sindicato:
O Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba manifesta seu repúdio veemente à truculência policial e às práticas antissindicais adotadas pela empresa Brose contra os trabalhadores e trabalhadoras ocorridas na manhã desta quarta-feira, 4/2, em frente da fábrica, localizada em São José dos Pinhais (PR).
Trabalhadores estavam reivindicando, de forma legítima e democrática, melhores condições de trabalho e salário, quando foram, simplesmente, atacados pela polícia. O ataque evidencia as prática antissindicais promovidas pela Brose. Trabalhadores estão sofrendo pressão e assédio desde o início das mobilizações. O Sindicato tem tido dificuldade para realizar assembleias devido a frequente intervenção policial.
É inadmissível que, em pleno Estado Democrático de Direito, reivindicações justas da classe trabalhadora sejam tratadas como caso de polícia. A utilização de forças repressivas para intimidar trabalhadores e restringir o direito à organização sindical, à manifestação e à negociação coletiva configura grave violação de direitos fundamentais garantidos pela Constituição Federal e por convenções internacionais da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A postura da empresa Brose comprova o total desrespeito ao diálogo. Ao invés de sentar para negociar, a empresa prefere dificultar apelando para práticas antissindicais e utilização inexplicável da polícia na tentativa de enfraquecer a mobilização dos trabalhadores, criminalizar a luta coletiva e impor, pelo medo, condições indignas de trabalho e remuneração.
Reafirmamos que não há crime em lutar por direitos. Utilizar a polícia para intimidar trabalhadores vai contra a própria instituição da Polícia Militar, cuja existência é servir e proteger o cidadão. Exigimos providências das autoridades visando garantir o que está na Constituição: o direito legitimo de manifestação e greve.
A luta dos trabalhadores da Brose por melhores salários e condições de trabalho continua. Não aceitaremos intimidação, repressão ou criminalização da luta por melhores condições de vida. Direitos não se reprimem, se respeitam.
SÉRGIO BUTKA – PRESIDENTE DO SINDICATO DOS METALÚRGICOS DA GRANDE CURITIBA

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Atualmente, é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero, religião e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast sobre política na perspectiva de mulheres.











