Após flagrar plágio em trabalho de graduação, docente passou a ser perseguida por alunas do curso de psicologia com ofensas racistas
“A Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), fiel à sua missão humanizadora, reafirma o seu compromisso inegociável com o respeito, a inclusão e a dignidade de cada pessoa, considerando que o ambiente universitário deve ser um espaço de pluralidade, liberdade de pensamento e acolhimento, onde o conhecimento é potencializado a partir da diversidade de ideias e vivências”. É assim que começa mais uma nota de esclarecimento da PUCPR sobre um novo caso de racismo na instituição.
Desta vez, a vítima foi a professora Beatriz Alexsandra Garcia Pinho, conhecida como Betta Alves, mestre em psicologia clínica pela Universidade de Pádua (Itália), moradora de Curitiba, que lecionava no curso de Psicologia até ser desligada dias antes do término do seu contrato, em dezembro.
Beatriz está processando a PUCPR na esfera trabalhista. O Plural teve acesso ao documento. O documento acusa a instituição de demitir a trabalhadora antes do término do contrato, após ela denunciar ter sido vítima de racismo. As alunas acusadas como autoras ainda estão na instituição, e a PUCPR, conforme informou em nota, apura os detalhes em uma sindicância.
A professora Beatriz passou no processo seletivo de ações afirmativas cujo contrato de trabalho começou em 5 de fevereiro de 2024 com término previsto em 5 de dezembro de 2024. O advogado da docente, Valdyr Perrini, considera o contrato “fraudulento e inusitado”, devido a duração de 306 dias, e requer alteração para um contrato de prazo indeterminado.
Ocorre que ela foi desligada antes do previsto, em 2 de dezembro de 2024, após uma série de ataques racistas. Isso impactou também em seu tratamento médico contra um câncer, já que o encerramento do vínculo trabalhista também resultou no cancelamento do plano de saúde.
Entenda
No primeiro semestre a professora pediu que os estudantes de graduação lessem a obra “O normal e o patológico” (Georges Canguilhem), para disciplina de Fenômenos e Processos Psicológicos” e escrevessem uma resenha crítica, que deveria ser entregue em abril.
No entanto, com a descoberta do câncer, a professora precisou se afastar e foi substituída por outros docentes que, alongaram o prazo de entrega do exercício. Quando retornou, a professora, atendendo a um novo pedido de dilatação do prazo, permitiu que os estudantes entregassem o trabalho no fim do mês.
As resenhas foram protocoladas em um sistema próprio da PUCPR, que tem um mecanismo que identifica plágio. Na turma da manhã de psicologia 54% dos alunos entregaram trabalhos plagiados, conforme consta no processo trabalhista movido pela docente.
Depois de questionar os estudantes e futuros psicólogos sobreo plágio, quatro alunas afirmaram que a docente deveria “se colocar em seu lugar”. As ofensas escalonaram para os dias subsequentes, inclusive em ambientes de área comum, como corredores. De acordo com o processo, as aulas reclamavam de terem sido flagradas no plágio por “uma professora assim”. Isso, para o advogado que representa a docente, está interligado ao fato de a trabalhadora ser negra. Uma estudante chegou a mostrar mensagens de cunho racista trocadas pelos alunos no grupo de Whatsapp da turma.
Em maio a professora procurou a coordenação do curso, que sugeriu que a docente falasse com a ouvidoria da instituição, o que foi feito em 15 de maio de 2025. Em paralelo, as alunas também fizeram reclamações formais contra a professora, mas diretamente na coordenação, que desta vez agiu e começou a cobrar Beatriz.
Somente em setembro Beatriz foi ouvida no processo que ela mesma denunciou nos canais oficiais da PUCPR. Ela foi a última pessoa a ser chamada. A sindicância ouviu também as alunas acusadas de racismo, mas a estudante que apresentou os prints com mensagens racistas não foi chamada.
Em nota, a PUCPR afirmou que “no que se refere aos relatos de racismo trazidos à Universidade pela docente, é importante destacar que desencadearam o acionamento de fluxos específicos (fluxo de denúncia de caso de racismo), inclusive com instauração de uma sindicância, posteriormente convertida em Processo Administrativo Disciplinar (PAD), conduzido com rigor por comissão composta por docentes e profissionais da área jurídica, cujo desfecho já está à disposição das partes envolvidas”.
Demissão
“Eu fui desligada porque eu denunciei o racismo. O que aconteceu comigo? Eu fui desligada porque denunciei a violência que eu sofri de um grupo de alunas brancas, que foram abertamente racistas e que elas vão continuar sendo racistas na instituição”, disse a docente em entrevista à página Voz da Diversidade (veja aqui a íntegra).
A PUCPR, por sua vez, por meio de nota publicada no site institucional, mencionou que “a Universidade informa que vem adotando todas as providências cabíveis com responsabilidade e seriedade e, em razão da sensibilidade do tema e da circulação de informações imprecisas, tornou-se necessário apresentar esclarecimentos pontuais”
O texto prossegue: “a professora, contratada por meio de edital afirmativo para atuação por prazo determinado, não foi demitida. Aliás, seu contrato foi integralmente cumprido até o término previamente estabelecido, tendo sido acolhida no corpo docente da PUCPR com respeito, integração e compromisso institucional, inclusive tendo sido admitida como doutoranda no início de 2025”.
No processo, por meio do escritório Rocha Pombo, Andrade, Capetti e Carneiro, a PUCPR afirmou que o desligamento antecipado aconteceu por “adequações burocráticas” e que fez todos os pagamentos devidos, de acordo com a Lei.
No que tange ao plano de saúde, a PUCPR defende que a professora não estava em tratamento quando foi dispensada.
Outros casos
Esta não é a primeira vez em que ocorrem casos de racismo na PUCPR. Em 2023 o estudante Henrique Iolando Theodorowicz , que à época era bolsista no curso de Tecnologia em Jogos Digitais, registrou boletim de ocorrência junto à Polícia Civil (PC) por ser constantemente seguido por seguranças do campus de Curitiba.
No mesmo ano, durante a Semana da Consciência Negra, símbolos nazistas e mensagens racistas foram encontrados em um banheiro da instituição.
Fonte: Plural











