Quanta gente que não conta a própria história!
Isso parece óbvio até o momento em que percebemos que há vidas inteiras que só existem publicamente quando são narradas por outros. Corpos que só ganham sentido oficial quando alguém traduz, quando enquadra. Não como experiência, mas como um objeto.
Pessoas trans sabem bem o que é isso. Durante muito tempo, fomos personagens de discursos alheios: da medicina, da religião, da ciência. Fomos descrites, analisades, diagnosticades. Raramente fomos autorizades a narrar a nós mesmes.
Isso não é só sobre escrever.
Nos anos 1980, um jovem transmasculino chamado Anderson Herzer, nascido em Rolândia, escreveu sobre suas dores e quase ninguém estava disposto a escutar. Poeta, lançado na antiga Febem, viveu à margem de um mundo que não tinha lugar para ele. Foi suicidado aos 20 anos. Mas sua escrita ficou. Quantas vozes como a dele jamais chegaram a ser ouvidas?
Há alguns dias, em uma oficina de escrita afetiva que ministrei com o querido Régis Moreira,como parte da Jornada pela Visibilidade Trans 2026, um grupo diverso de pessoas trans e cis se colocou diante dessa possibilidade simples e radical: escrever sobre si. E alguma coisa aconteceu ali. Não estou falando de “produções bonitas” ou “relatos tocantes” somente, mas do gesto de tomar a palavra e ser protagonista da sua história, de organizar a própria experiência em linguagem. Não esperar que alguém faça isso por você.
Escrever, nesse sentido, não é somente expressão, é também disputa.
Narrar é definir. É organizar o mundo.
Não é só literatura, poesia ou memória, mas questionamento de quem ocupa os espaços onde histórias ganham forma pública: escolas, universidades, jornais, políticas públicas, tribunais. Trata-se de quem pode dizer o que uma vida é e o que ela pode ser.
Ultimamente, cada vez mais pessoas se colocam como aliadas nesse processo. Isso é muito importante! Mas precisamos saber separar quem realmente escuta daqueles que só se apropriam. De quem finge ouvir., mas não dá importância. Quem reconhece autonomia e quem só quer um chaveiro de “inclusivo”.
Contando nossa própria história não apenas falamos de nós mesmes. Estamos também recusando ser definides por outres. É até um risco: ter que lidar com nossas próprias contradições, mudanças, incertezas e caos.
Não incomoda somente o que estamos dizendo, incomoda o fato de dizermos.
Não esperemos autorização.
Quem contará nossa história?
Que sejamos nós!

Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.












