Será que somos nós, da esquerda, das minorias, dos corpos dissidentes, que desejamos a destruição de nossos adversários políticos?
Ou será que essa acusação é uma espécie de espelho que a extrema-direita joga para fugir da responsabilização?
Nos últimos dias, a extrema-direita voltou a usar uma velha tática: colocar-se como vítima. A narrativa é simples e perigosa: “a esquerda nos chama de extremistas para nos calar, para nos perseguir, para nos matar.”
Mas vamos ser honestes: quem deseja a morte de quem?
Quando Bolsonaro disse que queria “fuzilar a petralhada”, era só força de expressão? Quando Valadão disse que, se pudesse, Deus mataria toda a população LGBTQIA+, era um mero exercício de sua crença?
A extrema-direita gosta de inverter os papéis. Fala em liberdade, mas alimenta medo. Prega suposto patriotismo, mas incita o ódio contra vizinhes, colegas de trabalho, familiares. Faz de conta que são perseguides, mas passam décadas perseguindo.
Não é preciso romantizar a morte de ninguém para reconhecer de onde vêm os discursos que naturalizam a violência. O assassinato de Charlie Kirk, por exemplo, levantou variadas discussões. Mas vamos lembrar que ele próprio defendia execuções públicas como solução política. Não há inocência nesse jogo. Há um ciclo de ódio sendo produzido, e ele não nasceu da luta por diversidade, mas sim de quem a vida toda apontou armas contra ela.
Enquanto isso, quem morre de fato, em silêncio, sem manchete, somos nós. O Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas trans no mundo. Amigas minhas foram assassinadas. Amigues se suicidaram. São mortes atravessadas pela transfobia, pelo racismo, pela pobreza.
Quando dizem que a esquerda é quem deseja a morte, precisamos saber que isso não passa de um espelho sujo. São seus discursos, seus gestos, seus atos eleitoreiros (incitação ao ódio, transfobia aberta ou velada, criminalização de nossas existências) que provocam morte. Que desenham quem vive sob risco.
Não estou acusando abstratamente. Estou dizendo: há responsabilidade. Palavras importam. Discursos importam. Quando se legitima uma violência simbólica, quando se retrata corpos dissidentes como ameaça moral ou suspeitos de algo ruim, abrem-se portas para desconfiança, para agressão, para morte real.
Querem pintar a luta por igualdade como guerra violenta para nos desarmar moralmente; para nos deslegitimar; para que a violência deles continue parecendo ordem e a nossa resistência pareça crime; para seguir matando em silêncio enquanto dizem que são eles as vítimas.
Não confundamos: pedir justiça, igualdade e dignidade não é extremismo. Extremismo é querer fuzilar adversários, expulsar diferenças e sonhar com execuções públicas. Extremismo é construir um país onde só alguns têm direito de existir.
Quando dizem que a esquerda deseja suas mortes, não estão apenas manipulando: estão tentando encobrir estruturas de poder muito maiores que eles próprios.
A morte sempre foi utilizada por eles como objeto de poder.
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Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.











