Afinal, quem delimita quem “realmente” é trans e quem não passa de alguém “se passando por trans”? O que define uma pessoa como mais trans ou menos trans?
Nos últimos anos, tem crescido uma busca por uma espécie de “materialidade trans”, por critérios objetivos que delimitem uma transexualidade, travestilidade ou transgeneridade legítimas. Essa busca, por si só, não é, necessariamente, um problema. Quando pensamos políticas públicas, por exemplo, é importante que exista alguma definição do sujeito que se busca alcançar.
O problema começa quando essa lógica de definição vira ferramenta de exclusão. A cisnormatividade funciona a partir de um modelo fechado: ou o corpo se enquadra na definição rígida do que seria um homem ou uma mulher “de verdade” (leia-se cisgênero) ou esse corpo deixa de ser reconhecido como pessoa plena. Sua vida passa, então, a ser tratada como impossível fora desses moldes.
Nós, que vivemos na dissidência, somos justamente o contrário disso: múltiplas possibilidades para além da norma, muitas vozes e histórias. O que é limitado é a cisnorma, não as nossas existências. Não teremos, nem precisamos ter, uma visão única, estrita e limitada sobre o que significa ser trans.
Sempre que se estabelecem critérios rígidos para decidir quem é “trans de verdade”, uma régua é passada. E toda régua produz exclusão.
Isso não significa que seja impossível definir o que é uma pessoa trans. Novamente, o problema não é a definição em si, mas a função normativa que ela pode assumir. Quem vive para além da norma não pode criar uma outra norma.
A título de exemplo, quando se diz que “só é trans quem trocou de nome”, excluem-se mulheres trans, travestis, homens trans e pessoas não binárias que têm relações diferentes com seus nomes de batismo. E há infinitos motivos para isso. A própria cartunista Laerte Coutinho nunca alterou o nome. Alguém duvida que Laerte seja trans?
Outro exemplo comum: “só é trans quem faz hormonização”. Para muitas pessoas isso é importante, porém, para outras não é possível ou não é nem desejado. Há questões médicas, econômicas, familiares, de segurança e nenhuma delas pode virar critério de exclusão.
Quando discutirmos quem pode representar pessoas trans, quem é um “bom exemplo” desta vivência, qual corpo tem legitimidade para falar em nosso nome, precisamos fugir dessa tentação de normatizar. As vidas não-cis são diversas, múltiplas e plurais.

Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.












