Sindicato critica ausência de coleta de amostras em 2024 e alerta para os riscos à saúde, enquanto o governo afirma que outras ações estão sendo realizadas
O SindSaúde-PR (Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público da Saúde e da Previdência do estado do Paraná), posicionou-se contra o relatório estadual de análise de resíduos de agrotóxicos em alimentos. Apresentado em março deste ano pela Sesa (Secretaria Estadual de Saúde), o documento tem como referência o ano de 2024. O Sindicato alerta que não foram realizadas análises laboratoriais no período. A Sesa sustenta que apesar disso, outras ações de relevância foram executadas.
Em 2024, foi aprovado um novo Programa Estadual de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA/PR). Uma das metas é a análise de amostras do PARA/PR, que estipula a análise de 90% das amostras programadas e coletadas. Não foram apresentados resultados.
Outro objetivo é a execução de 80% das ações estratégicas do Plano Estadual de Vigilância e Atenção à Saúde das Populações Expostas aos Agrotóxicos (PEVASPEA) ao longo de quatro anos (2024–2027). Foi registrado o cumprimento de 15,7% do total das ações previstas para este período.
O SindSaúde-PR, que também participa do Conselho Estadual de Saúde, afirma que os resultados apresentados estão incorretos. O questionamento da entidade é que em 2024, não foram coletadas amostras para a análise laboratorial, pois a licitação para o laboratório está em andamento. Dessa forma, não havia como realizar esse procedimento.
“A medida em que eles não vão ao CEASA e não coletam amostras, não sabemos se os alimentos estão com um nível de resíduos de agrotóxicos aceitável, a gente não sabe o que está comendo”, aponta Elaine Rodella, diretora do SindSaúde-PR.
A liderança comentou também que o consumo de altos níveis de agrotóxicos é prejudicial à saúde.
“Este consumo aumenta o número de cânceres, como de esôfago, intestino, pâncreas e causa doenças neurológicas, porque muitos agrotóxicos também atingem o cérebro”, afirma Rodella.
Apesar dos questionamentos do SindSaúde, o relatório foi aprovado, já que o Conselho é composto por 36 entidades.
A Sesa informou que apesar de não haver coleta de amostras, outras ações previstas no Programa foram efetuadas. “Atividades de educação sanitária, articulação interinstitucional, elaboração e publicidade dos Relatórios de análises dos ciclos de avaliação, divulgação de informações à população, entre outras. Essas ações estão documentadas nos Relatórios Quadrimestrais e no Relatório Anual de Gestão”, ressalta a Secretaria.
A respeito da licitação, o órgão assegurou que segue os procedimentos padrão. “O processo de licitação está em andamento, seguindo rigorosamente os trâmites administrativos previstos”, aponta a Sesa.
A pasta comentou, ainda, que há avanços no estado quanto a esta pauta. “Mesmo com essa limitação temporária, o Paraná tem avançado no controle de resíduos de agrotóxicos. O último ciclo de avaliação (2023) apontou uma média de amostras insatisfatórias de 16% no estado, abaixo da média nacional (26%). Na alimentação escolar, esse índice foi ainda menor: apenas 6% das amostras foram consideradas insatisfatórias, com predominância de amostras sem resíduos detectáveis”, acrescenta a Secretaria.
Impactos dos agrotóxicos na saúde
Mario Lobato da Costa, médico, membro do Fórum Popular de Saúde do Paraná, alerta que o uso de agrotóxicos no Brasil vem aumentando. “O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, tanto em volume como em valor gasto. O país usa mais agrotóxicos do que a China e os Estados Unidos juntos. A expansão da agricultura, incluindo o uso de transgênicos, contribuiu para esse aumento. De acordo com relatório divulgado pelo INCA, o Brasil despeja mais de um milhão de toneladas de agrotóxicos nas lavouras por ano. O que daria, em média, cinco quilos de veneno agrícola por pessoa”, indica.
Costa aponta que cerca de 20% das vítimas de intoxicação são crianças e adolescentes e que houve um aumento do uso dessas substâncias em seis vezes nos últimos 20 anos, devido ao lobby das multinacionais agroquímicas.
“É escandaloso que grande parte do processo de liberação destes produtos (muitos dos quais inclusive já foram banidos na União Europeia) tenha sido retirado da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e agora esteja a cargo do Ministério da Agricultura. A raposa cuidando do galinheiro”, acrescenta Costa.
O médico sustenta, ainda, que a exposição aos agrotóxicos pode causar diversos problemas de saúde, seja pelo consumo de alimentos ou água contaminados ou pelo espalhamento em áreas próximas.
“Intoxicações agudas e crônicas, com efeitos que vão desde náuseas e dores de cabeça até doenças crônicas como câncer e distúrbios mentais. Estes últimos incluem distúrbios comportamentais, como irritabilidade, ansiedade e depressão, assim como aumento comprovado da tendência ao suicídio em populações rurais além do uso de agrotóxico nos casos de tentativa de suicídio”, afirma Costa.
Matéria da estagiária Laís Amábile sob supervisão.












