Ajuste fiscal. Metas. Contas públicas. Corte de gastos. Aumento do valor do dólar. Queda da Ibovespa. Na semana que passou, essas palavras (variantes linguísticas) voltaram à cena, por causa do autoanúncio do senador Flávio Bolsonaro, que foi ungido pelo pai, para disputar a Presidência da República, em 2026. Esse anúncio derrubou as expectativas de quem apostava (e ainda aposta) no nome do bolsonarista Tarcísio de Freitas, para enfrentar Lula.
Flávio Bolsonaro é uma tentativa do presidiário Jair Bolsonaro em manter sua hegemonia, fazendo a extrema direita orbitar em volta de um nome do clã. Tarcísio de Freitas representa um bolsonarismo sem Bolsonaro, mas não nos enganemos, a criatura fluminense que se elegeu governador de São Paulo é igual ao criador. Isso mesmo. Porque se trata do mesmo projeto político.
Então, por que o mercado reagiu mal com o nome de Flávio Bolsonaro para as eleições de 2026? Pelo fato de o senador ter menos chances de vitória contra Lula, do que o governador de São Paulo. O tal mercado – essa divindade que reúne devotos do capital especulativo que concentra riquezas – quer um nome que corte investimentos públicos das políticas que atendem quem mais precisa. Isso significa reduzir o tamanho do estado na saúde, na educação, na assistência social, por exemplo.
Em março deste ano, Tarcísio de Freitas criticou – imagine, para uma plateia de investidores – a proposta do governo de isentar do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil e compensar com a cobrança de quem ganha mais de R$ 50 mil por mês. “Quando se faz esta escolha, ‘vou abrir mão desta base de pagantes, que é o que a maioria dos países faz, e vou apostar em outra coisa, em tributar o capital’, isso destrói a poupança e o investimento.”
O governador paulista não citou diretamente a proposta do governo federal, porque sabe que a medida beneficia milhões de pessoas, eleitores em 2026 a quem ele vai atrás de votos, mas deixou claro que prefere cobrar dos mais pobres a taxar os mais ricos, ou seja, aquela gente da seleta plateia do evento promovido pela Galapagos Capital, uma companhia de investimento.
O projeto político da extrema direita – que inclui a direita e a centro-direita que votam com os extremistas – portanto, é uma coisa só – passa pelo corte de investimentos em políticas públicas. Esse projeto tem um aliado importante, que serve de correia de transmissão: a imprensa tradicional, que tem verdadeiro fetiche por uma 3ª via. Dizem os colunistas domesticados que essa 3ª via seria uma alternativa à polarização ao lulismo e bolsonarismo. Análise enviesada para enganar quem quer ser enganado.
A tal 3ª via nada mais é que um Bolsonaro domesticado, com dentes escovados. Essa mesma imprensa apostou que Jair Bolsonaro seria domado a partir de 2019, porque avalizou e elogiou o projeto econômico implantado pelo economista Paulo Guedes. Quem diz que Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Record e afins são esquerdistas porque atacam Jair Bolsonaro, nem percebe que esses mesmos veículos nunca atacaram, sistematicamente, o projeto político econômico implantado por Guedes.
A imprensa defende ajuste fiscal nas contas públicas, pedindo corte de recursos públicos em programas para quem mais precisa, e nunca pauta o gasto do Orçamento da União com o pagamento de juros e amortizações da dívida pública. Sabe porquê? Porque esse recurso está nas mãos do mercado financeiro e quanto mais alta a taxa Selic, mais essa gente rica enriquece.
Em 2024, o pagamento de juros e amortizações da dívida comeu 42,96% do Orçamento Federal. Enquanto isso, o investimento na Previdência Social, Assistência Social, Saúde e Educação somou 34,26%. Em 2023, o pagamento de juros da dívida consumiu 50,87% e em 2022, 46,30%. Esses números são da Auditoria Cidadã da Dívida e podem ser acessados aqui.
Portanto, é da natureza dos mais ricos apoiar e votar em um projeto político que mantenha seus privilégios e interesses, exigir que o ajuste fiscal seja feito nas costas do trabalhador e da trabalhadora. E agora você – que não ganha R$ 50 mil nem investe nas bolsas de valores e fundos de pensão – vai continuar elegendo quem atua contra os seus interesses?

Reinaldo Zanardi
Jornalista, doutor em Estudos da Linguagem, mestre em Comunicação. Diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Norte do Paraná. Professor do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina. Membro do Conselho Municipal de Política Cultural de Londrina.











