Com os passar dos dias, se aproximada a data de divulgação do próximo dossiê sobre assassinatos de pessoas trans produzido pela ANTRA. E com essa proximidade, há algo suspenso no ar. É um silêncio pesado, desses que antecedem notícias que já conhecemos, antes mesmo de serem anunciadas.
Sabemos o que vem: números que não são apenas números, estatísticas que carregam nomes e histórias arrancados à força. Contar nossas mortes é um gesto político, um trabalho de memória, uma recusa ativa ao esquecimento que a cisnormatividade insiste em nos impor.
Não se trata de se apegar a dor, à morte. Nomear a violência é parte do enfrentamento, mas também é verdade que viver permanentemente apenas nesse lugar do luto pode nos roubar algo vital: a capacidade de projetar horizonte.
Não venho pregar positividade barata. Não é um “vai ficar tudo bem”. Não está tudo bem. Nosso sofrimento é real e estrutural. Não reconhecer isso é mais uma violência.
É justamente por isso que falo aqui de esperança, mas não qualquer esperança. Não é uma espera passiva, como fé descolada da realidade. Falo de uma esperança como de Paulo Freire, como verbo “esperançar”.
Manter a esperança nunca foi algo confortável para nossos corpos. Sempre foi necessário. Mantemos a esperança quando continuamos existindo, quando o cistema insiste que não deveríamos, quando criamos, amamos, estudamos, ocupamos espaços, construímos redes e mesmo quando tudo parece dizer que não vale a pena.
Uma esperança transfeminista não nasce de ingenuidade, mas de uma profunda lucidez e compromisso político. Ela não ignora a violência; ela a enfrenta sem permitir que ela seja o único idioma possível. Em um cistema que nos quer mortes (física, simbólica, socialmente), manter a esperança é um ato político, é quase um escândalo de tão subversivo. Sabotamos este cistema somente por permanecermos vives, imaginem o poder que temos se acreditarmos em nós mesmes. Cuidar umes des outres é um gesto revolucionário. Produzir conhecimento, memória e afeto é desorganizar essa lógica da morte.
Não é sobre cantar vitória antes da hora. É ter a certeza de que a cisnormatividade vai cair, a transfobia vai acabar. E não será por concessão. Nós mesmes construiremos isso. A cisnormatividade cairá porque não consegue se sustentar sem violência permanente. E quando ela cair, o abalo não será pequeno: atingirá o próprio coração de um modelo econômico e social baseado na exploração e no controle dos corpos – o capitalismo.
Manter a esperança, hoje, é um compromisso ético e político. Não como consolo, mas como uma arma, uma estratégia de resistência. Uma esperança transfeminista que não traga salvação, mas que convoque à luta. Que celebre a vida e nos lembre pelo que lutamos.

Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.











