A principal finalidade é discutir o potencial político da arte, o protagonismo da mulher negra na cultura bem como tentativas de silenciamento
Neste sábado (27), a Usina Cultural oferta a palestra “A mulher preta e seu espaço na cultura”. A fala é da produtora cultural, professora do Departamento de Comunicação da UFPR (Universidade Federal do Paraná), pesquisadora da cultura do samba, Juliana Barbosa.
Segundo Barbosa, a principal finalidade do encontro é discutir o potencial político da arte e o protagonismo da mulher negra em determinadas áreas da cultura, a exemplo do samba, bem como os apagamentos históricos que inviabilizam esta atuação.
“Aceitei esse convite muito feliz por ser uma mulher preta, por estar totalmente envolvida com a cultura, porque além de pesquisadora também sou produtora cultural, atuei nessa área por mais de 15 anos em Londrina, e é uma área sobre a qual eu reflito também. Então, acho muito importante compartilhar essas reflexões, porque só isso, na minha opinião, nos faz avançar, tanto refletir quanto agir”, relata.
Alana Komatsu, produtora cultural, coordenadora do SATED-PR (Sindicato dos Trabalhadores das Cênicas e do Audiovisual no Paraná) – Núcleo Londrina pontua que a ideia de promover a palestra surge da necessidade de escutar as vozes destas mulheres, cujo pacto da branquitude não mede esforços em tentar calar, além de contribuir com a ruptura de uma “história única”, na qual as mulheres negras estão associadas apenas a papéis e espaços de subalternidade.
“Trazer esse debate para dentro de Londrina é uma forma de fortalecer a luta coletiva e a participação de mulheres pretas na construção cultural nos dias de hoje”, indica.
“Discutir o espaço da mulher preta na cultura é fundamental porque a cultura sempre foi um lugar de resistência de luta de coletividade pelo menos deveria ser esse espaço, um espaço de criação de identidade e, principalmente, um espaço de transformação social. Eu acredito que a arte tem esse poder político e que ela pode sim denunciar as injustiças, o racismo, as violências”, ela complementa.
Barbosa, que também é integrante do coletivo Acadêmicas dos Sambas, formado por mulheres cientistas de diferentes regiões do país, que pesquisam samba e carnaval a partir das perspectivas de gênero e raça, salienta a importância de debater as desigualdades de maneira interseccional, ou seja, demonstrando como diferentes formas de discriminação e opressão se sobrepõem e afetam a construção das identidades e trajetórias dos indivíduos.

Para ela, o processo de exclusão da mulher negra na sociedade brasileira, vítima de sexismo e racismo, “foi pensado, planejado e muito bem executado”.
Porém, de acordo com Barbosa, da mesma forma que as desigualdades são construídas, elas também podem ser superadas.
“Qualquer mudança nesse sentido também tem que ser pensada, planejada, tem que ser de longo prazo, tem que mexer na base, tem que mexer na estrutura. E se a gente não tiver discussão, reflexão e conhecimento para isso, a gente vai naturalizar essas diferenças e elas provavelmente não vão só continuar como ser acentuadas”, assinala.
“Que por meio da arte e cultura, a gente possa escancarar, mostrar tudo que muitas vezes é silenciado e a partir disso criar não só novos imaginários, mas novas realidades, valorizar as potências”, complementa Komatsu.
A atividade é totalmente gratuita e as inscrições devem ser feitas pelo Sympla, neste link: https://encurtador.com.br/hJSzO.
“Eu espero que as pessoas possam usufruir da palestra com vontade de agir, de engajar em coletivos, de construir novos projetos culturais, para se identificarem e se entenderem enquanto pessoas dentro da cultura, para que entendam que têm força e possam lembrar disso. Levar essa luta adiante e, principalmente, fortalecer a ideia de que a arte e a cultura podem ser um meio muito forte de transformação social”, sinaliza Komatsu.
A palestra “A mulher preta e seu espaço na cultura” integra o projeto “Pontes de Cultura – engrenagens do futuro”, realizado pela Usina Cultural, com recursos do Governo Federal, por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de Londrina. A Usina Cultural fica na avenida Duque de Caxias, nº 4.159.
A professora compartilha que a expectativa é que o encontro seja “potente”, propiciando a troca de ideias. “Que a gente possa amadurecer reflexões, sair com mais perguntas, porque são as perguntas que nos movem, e que seja também um momento de celebrar a cultura negra, especialmente, a cultura negra brasileira”, diz.
“Quero convidar todas as pessoas que se interessam nesse assunto para estarem junto com a gente no sábado a partir das 19 horas na usina cultural”, convida Barbosa.

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Atualmente, é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero, religião e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast sobre política na perspectiva de mulheres.











