Vídeo recebido pela APP-Sindicato mostra estudantes marchando e cantando versos como “homem de preto, qual é sua missão? Entrar na favela e deixar corpo no chão”
Um vídeo divulgado pela APP-Sindicato (Sindicato dos Professores e Funcionários de Escola do Paraná), na última sexta-feira (28), viralizou nas redes sociais. Na gravação, estudantes de um colégio cívico-militar em Curitiba aparecem marchando e entoando versos que falam em “entrar na favela e deixar corpo no chão”. O nome da escola não foi divulgado. Nas imagens, os alunos aparecem sob orientação de um policial militar. Confira:
A presidenta da APP-Sindicato, professora Walkiria Mazeto, salienta que denúncias de apologia à violência são constantes nos colégios em que o governador Ratinho Júnior (PSD) impôs o modelo cívico-militar.
“Absurdos como esse do vídeo não são casos isolados. Desde o início deste programa, temos recebido e denunciado ocorrências semelhantes e até piores em escolas que adotaram o modelo cívico-militar. É chocante ver que a escola pública esteja sendo usada para promover uma doutrinação ideológica extremista, que prega o ódio, a violência, o massacre e o extermínio de comunidades periféricas. Isso é muito grave e reforça a nossa luta contra a militarização da educação e a urgência do Poder Judiciário determinar o fim desse programa ilegal e inconstitucional”, adverte.
As escolas cívico-militares foram implantadas no Paraná em 2020, pouco após o governo Jair Bolsonaro (PL) propor modelo semelhante em âmbito federal. O programa mantém a gestão civil da escola e acrescenta a presença de militares da reserva na administração e na rotina escolar. Atualmente, 312 unidades adotam o modelo no estado.
De acordo com levantamento da APP-Sindicato, policiais militares contratados para atuar como monitores recebem, em média, R$ 5,5 mil por mês, mesmo sem formação para trabalhar com estudantes. Já os professores da rede estadual têm um piso salarial de R$ 4,9 mil para jornada de 40 horas semanais.
No mês passado, o governador Ratinho tentou ampliar o programa cívico-militar para mais 50 escolas estaduais incluindo unidades que ofertam ensino em tempo integral. Entre as escolas selecionadas, 33 aprovaram a iniciativa e 17 rejeitaram o modelo (saiba mais aqui).
O atual programa é alvo de uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal) desde 2021. No processo, a AGU (Advocacia-Geral da União) já se manifestou dizendo que o modelo é inconstitucional, porque os estados não podem criar um sistema educacional não previsto na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e porque a Constituição não autoriza militares a exercerem funções de ensino ou gestão escolar.” O relator do caso no STF é o ministro Gilmar Mendes.
O que diz a Secretaria Estadual de Educação
A SEED (Secretaria de Estado da Educação) divulgou uma nota no último sábado (29). Acompanhe:
A Secretaria de Estado da Educação do Paraná informa que, ao tomar conhecimento do vídeo divulgado nesta sexta-feira (28), solicitou imediatamente informações à direção da escola e aos profissionais envolvidos.
Essa é a primeira medida adotada para esclarecer com precisão as circunstâncias do ocorrido.
O conteúdo registrado não condiz com as diretrizes, princípios e orientações da rede estadual de ensino.
A Secretaria repudia qualquer manifestação que estimule violência ou discriminação e reforça seu compromisso com uma educação pública pautada pelo respeito, pela inclusão e pela proteção integral dos estudantes.

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Atualmente, é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero, religião e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast sobre política na perspectiva de mulheres.











