Ser cis não é ser normal. É apenas uma forma de existir entre outras. Mas o que é cis? É a pessoa que não reivindica um gênero diferente daquele designado em seu nascimento. Quem nasceu com pênis, foi reconhecido como “menino” e segue se reconhecendo assim, é cis.
Quem nasceu com vulva, foi chamada de “menina” e não reivindica/vivencia outro gênero, é cis. Em termos simples.
Essa palavra não foi inventada para ofender, mas para nomear o que antes passava sem nome. Porque só se dizia “trans” e o oposto disso era tratado como se fosse apenas “normal”, “natural”, “biológico”. Chamar alguém de cis não é projetar uma normalidade sobre essa pessoa, é exatamente o contrário: é recusar a ideia de que só as pessoas trans têm identidade, enquanto as cis seriam a régua invisível que mede o resto do mundo.
Quando dizemos “cis”, elaboramos a contraparte constitutiva de “trans”. Fazemos isso não para criar uma nova divisão, mas para forçar a reflexão, para tirar as pessoas trans do lugar de anormalidade e mostrar que somos apenas mais uma entre tantas possibilidades de viver o gênero.
O que chamam de “normal” não é dado pela biologia: é resultado de acordos, normas sociais. E a norma não é inocente. Ela organiza quem pode existir sem ser questionado e quem precisa se justificar para existir. Pessoas cis raramente sentem o peso da explicação; nós, pessoas trans, carregamos diariamente a exigência de provar que somos quem realmente somos. Essa diferença não é natural: é política, social e historicamente construída.
É por isso que ser maioria não significa ter o direito de decidir quem merece dignidade. Direitos não são concessões da maioria, mas garantias mínimas para todes. Se apenas quem está no centro pudesse definir isto, viveríamos sob a ditadura da maioria, não uma democracia.
O que reivindicamos não é excesso ou privilégio. É o mesmo que vocês já têm e muitas vezes nem percebem: o direito de existir sem vigilância, de andar sem medo, de não ser reduzide a uma explicação. Nossa diferença não diminui nossa humanidade; ela só mostra que a vida é maior do que a norma.
Reconhecer que existe cis e trans não deveria ser visto como ameaça, mas como possibilidade. Uma possibilidade de olhar para a diversidade humana sem hierarquias injustas; Possibilidade de construir uma democracia que não só conte números, mas reconheça vidas. Porque nós temos os mesmos direitos. E não temos que aceitar menos do que isso.

Ursula Boreal Lopes Brevilheri
Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos.











