Um grupo formado por parentes de pessoas mortas pelas forças de segurança no Paraná vem cobrando explicações para os casos e dando acompanhamento para famílias de vítimas. Criado em abril do ano passado, o coletivo Desmilitariza faz atos públicos na Rua XV de Novembro, em Curitiba, sempre no segundo sábado de cada mês, com fotos das pessoas mortas em supostos confrontos, principalmente com a Polícia Militar (PM).
“Começamos a partir de algumas pessoas que tinham familiares vitimas da polícia. Articulamos esse grupo de familiares e pessoas que são apoiadores, como é o meu caso. Temos até uma pessoa que perdeu os dois filhos. Mataram um, vinte dias depois mataram o outro, dentro de casa”, diz o auditor aposentado Paulo Diniz D’Àvila, um dos integrantes do grupo. “Essas pessoas começam a ver que é necessário fazer alguma coisa e não simplesmente ficar destruído, têm que começar a reagir”.
O coletivo ajuda familiares de vítimas com advogados e produção de laudos. “Quando nos procuram, a gente tenta auxiliar da forma que for possível. Tem casos em que conseguimos advogados que não cobram nada de famílias pobres. Quando a família contrata o advogado, a gente auxilia no que for possível. Mas tem casos em que a gente consegue pagar uma perícia paralela”. O coletivo pode ser contatado pelo WhatsApp (11) 91475-1181 ou pelo Instagram, no perfil @Desmilitariza_FRMD.
Conta macabra
De 2019 até o fim do ano passado, as ações das forças de segurança do Paraná deixaram 2.371 mortos, segundo levantamento divulgado pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR) em janeiro (a contagem do coletivo é de 2.354 no mesmo período). Em 2024, foram registradas 413 mortes. A conta inclui ações da PM, da Polícia Civil e das Guardas Municipais, mas a maioria envolve a PM. Dos 433 casos registrados como confrontos no ano passado, a Polícia Militar esteve envolvida em 424 (97,7% do total), a Polícia Civil em cinco (1,2%) e guardas municipais em quatro (0,9%).
A ações da PM de São Paulo têm chamado a atenção de todo o país pela violência e pela letalidade, mas em 2023 a polícia do Paraná matou proporcionalmente três vezes mais. Segundo o MPR, entre janeiro e dezembro de 2023, foram contabilizadas 343 mortes. Em São Paulo, no mesmo período, foram registradas 460 mortos. A população do estado vizinho é cerca de quatro vezes a população paranaense. Ou seja: caso agissem em um estado com população equivalente, é como se as forças policiais do Paraná tivessem tirado a vida de mais de 1,3 mil pessoas.
“Aí tem o problema da vitrine. Rio de Janeiro tem fama, em São Paulo a polícia é muito violenta e a polícia da Bahia é a que mais mata. No meio disso aí, encobrem a realidade”, afirma Paulo Diniz D’Ávila. “Como a estatística da violência policial é tomando um por 100 mil pessoas, no ano de 2023 a policia matou do Paraná matou três vezes mais que a polícia de São Paulo. No entanto, nos meios de comunicação do Paraná, muito controlados pela familia do (governador) Ratinho Júnior, isso é completamente acobertado. Não se fala nisso, os veículos não são capazes de procurar um especialista”.
D’Ávila diz ainda que muitos casos não chegam a gerar um inquérito na Polícia Civil. “Muitas vezes, ao invés do inquérito feito pela Polícia Civil, como á previsto, é feito um Inquérito Policial Militar (IPM). Eles defendem a corporação. O segundo passo que acoberta isso são os laudos. Quando o inquérito feito pela PM que recomenda o arquivamento chega ao Ministério Público eles arquivam, vai para o juiz e ele referenda. A outra peça no acobertamento são os meios de comunicação: quando dão a notícia, eles dão a versão do confronto”.
Outro fato que chama a atenção é o baixo número de feridos. “Quem trabalha com dados de segurança sabe que o número de feridos sempre é superior ao de mortos (em casos de confronto). No caso do Paraná raramente aparece um ferido, é sempre morte”. No ano passado, além das 413 mortes, foram registrados 112 pessoas feridas em confrontos. Dos 433 casos registrados como confronto em 2024, em 118 (27,3% do total) a vítima não portava arma de fogo no momento da ocorrência.
Fonte: Jornal Plural