Edições serão quinzenais e pretendem questionar padrões concebidos como universais
A partir desta semana, os times de colunistas do Portal Verdade e Aroeira serão renovados. Chega para somar, Ursula Boreal Lopes Brevilheri. Travesti não binária, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, ativista de direitos humanos, Ursula assinará “Insubmissível”, espaço que pretende provocar reflexões sobre questões de gênero e suas interseccionalidades.
Com edições quinzenais, os textos prometem debater assuntos como direitos de pessoas trans, heterossexualidade e cisgeneridade (categoria que se refere à pessoa que se identifica com o gênero atribuído no nascimento) compulsórias, linguagem inclusiva e resistências fabuladas por este segmento população deixado à margem.
No Portal Verdade, a estreia ocorre nesta quinta-feira (27). Já no Aroeira, a primeira edição vai ao ar no próximo sábado (29). O programa é veiculado todos os sábados, às 12h, na Rádio UEL FM.
Em entrevista ao Portal Verdade, Ursula conta como foi receber o convite, suas motivações para escrever, expectativas com a coluna e a importância de ocupar os meios de comunicação, principalmente, face à ofensiva que tem desmantelado as agendas da igualdade e diversidade de gênero mundo afora.
Acompanhe entrevista na íntegra:
Portal Verdade (PV): Como recebeu o convite? E quais as motivações para aceitar, ou seja, o que te leva a escrever?
Ursula Brevilheri: Recebi com muita alegria e empolgação, especialmente, porque acredito que a escrita e a leitura são potentes ferramentas de debate e transformação social. Não se trata somente de informar, mas questionar padrões e abrir caminhos para novas possibilidades.
Aceitei a proposta porque acredito que ocupar espaços como o Portal Verdade e o programa Aroeira é fundamental para tensionar temas que muitas vezes são abordados com a devida honestidade ou a partir das vozes que realmente precisam ser ouvidas.
PV: A coluna será nomeada “Insubmissível”. O que te levou a escolher este título?
Ursula Brevilheri: Escolhi esse título “Insubmissível” porque essa palavra carrega fundamentalmente uma recusa: não se dobrar a padrões socialmente impostos e a expectativas que limitam, invisibilizam e silenciam as diferentes formas de ser e estar no mundo. Pretendo trazer discussões muitas vezes ignoradas, propor debates que efetivamente considerem corpos trans, travestis, transmasculinos, não binários, com deficiência, marginalizados, a partir de uma perspectiva interseccional. Reconheço que esses temas muitas vezes “incomodam”, desafiam estruturas estabelecidas e nos convocam a pensar além. E é justamente a minha proposta com essa coluna: não se submeter às violências cotidianas, mas evidenciá-las e denunciá-las.
PV: Quais as expectativas com a coluna?
Ursula Brevilheri: Espero que a coluna seja um espaço de diálogo, mas sobretudo de incômodo – no melhor sentido da palavra. Quero provocar leituras leituras críticas, trazer discussões urgentes sobre gênero, direitos, política, e ao mesmo tempo aproximar estes temas do cotidiano das pessoas. Também quero que a coluna dialogue com a realidade londrinense, com os desafios e avanços em nossa cidade e região, para que os debates não fiquem apenas no plano abstrato, mas façam sentido para a população.
Eu gosto muito de uma autora travesti, Jota Mombaça, que fala como “nomear a norma” desestabiliza o conforto ao qual as pessoas estão acostumadas, produzindo reflexão, questionamento. Tantas coisas em nosso contexto cotidiano simplesmente não são ditas, e isso só fortalece as violências e violações de direitos. Minha ideia é poder inserir estes debates no dia a dia da população.
PV: Em sua avaliação, qual é a importância de ocupar os meios de comunicação com discussões de gênero e suas interseccionalidades?
Os meios de comunicação são responsáveis por moldar narrativas e impulsionar visões de mundo, e quem domina estes espaços determina quais histórias são contadas e quase vozes são ouvidas. Quando ocupamos estes espaços, estamos questionando o que normalmente é estabelecido como “universal”, enfrentando a ideia de que só determinadas vozes podem falar. As travestis, por exemplo, foram e são sistematicamente apagadas dos registros e produções dos meios de comunicação mais acessados.
Será que essa realidade é imutável? Eu acho que não. Penso que o movimento é análogo ao tratamento de uma ferida. Não basta que somente ignoremos ela, deixando que infeccione e produza cada vez mais problemas. É preciso enfiar o dedo, remediar, apresentar soluções, discutir com quem tem propriedade para tratá-la. Só assim podemos fechar essa ferida aberta coletivamente nos corpos de pessoa marginalizadas.
O Portal Verdade e Aroeira são idealizações do Coletivo de Sindicatos de Londrina e Região.

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Atualmente, é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero, religião e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast sobre política na perspectiva de mulheres.