Manifestantes seguem para COPEL para cobrar apuração de mortes de trabalhadores ligados à empresa
O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Londrina (SINTRACOM) organiza na manhã desta sexta-feira (28), protesto na Gleba Palhano (na rotatória da Av. Ayrton Senna com Av. Madre Leônia Milito), a fim de chamar atenção para o aumento de mortes provocadas por acidentes de trabalho no país. A entidade pretende iniciar a concentração logo nas primeiras horas do dia, a partir das 6h.
De acordo com dados do Observatório do Trabalho Decente, Londrina é a terceira cidade que mais registrou acidentes de trabalho em 2022. A cidade só fica atrás de Curitiba e Cascavel no estado. Segundo o levantamento, o município contabilizou 2,5 mil acidentes, resultando em quatro mortes. Ainda, foram concedidos 648 benefícios previdenciários (auxílio doença) e 42 pedidos de aposentadoria por invalidez foram aprovados no último ano.
No Paraná, foram identificados 232 óbitos no mesmo período. O estado ocupa o 4º lugar no ranking de acidentes de trabalho, com 44.786 ocorrências. “Vamos colocar 232 cruzes e uma grande no centro, que será decorada com capacetes de várias cores, branco, verde, amarelo, entre outras. A ideia é fazer uma homenagem para pessoas que perderam a vida trabalhando, tentando levar o pão de cada dia para casa”, conta Denilson Pestana, presidente do coletivo.
Também ocorrerá panfletagem e carro de som para que os trabalhadores possam aumentar a visibilidade da pauta. A principal intenção é sensibilizar a população londrinense para a precarização do trabalho, a exemplo do crescimento de contratações terceirizadas e informais. Ao mesmo tempo, evidenciar que os processos de flexibilização das legislações e esvaziamento dos órgãos de fiscalização, intensificados durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), têm deixado os funcionários em situação de vulnerabilidade ainda maior.
“Os sindicatos têm fiscalizado os locais de trabalho, denunciado irregularidades ao Ministério Público e Ministério do Trabalho, mas é como secar gelo, porque as instituições de fiscalização foram desmontadas ao longo do governo Bolsonaro. Não fazem concurso, às vezes quando tem carro, não tem diária, quando tem diária, o carro está quebrado. Na nossa região, temos cerca de 160 municípios e quantos profissionais da área de segurança? São muito poucos”, observa a liderança.
A ideia é que as cruzes permaneçam durante todo o dia no local e só sejam retiradas no entardecer. Após mobilização na Gleba Palhano, por volta das 9h, os manifestantes seguirão até a sede da Companhia Paranaense de Energia (COPEL). A expectativa é lembrar a morte de 16 trabalhadores que foram vitimados enquanto atendiam demandas da empresa.
Ainda, de acordo com Pestana, um documento será entregue à direção da COPEL cobrando que a sindicância instaurada para apurar os acidentes também agregue funcionários e, além disso, procedimentos de segurança sejam implementados para diminuir os riscos a que estão submetidos trabalhadores do setor da energia elétrica no estado.
“Na COPEL, perdemos 16 trabalhadores de empreiteiras, que prestam serviço à empresa em todo o estado e acabam não tendo adoção de medidas que possam coloca-los em maior segurança. A COPEL criou uma comissão para analisar estes acidentes, mas não chamou os trabalhadores, só quem está matando, mas não quem está morrendo”, adverte.


“Abril Verde”
A data (28 de abril) marca o Dia Mundial em Memória às Vítimas de Acidentes e Doenças Relacionadas ao Trabalho, e rememora 78 trabalhadores mortos na explosão de uma mina em Virgínia, nos Estados Unidos, na década de 1960. Ao longo de todo o mês, denominado “Abril Verde”, ações para conscientizar a população sobre a importância da saúde e segurança no trabalho têm sido propostas em todo o país.
Mortes e acidentes crescem em todo país
De 2012 a 2022, o Brasil registrou 25,5 mil mortes causadas por acidentes de trabalho. Os dados foram divulgados pelo Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, vinculado ao Ministério Público do Trabalho (MPT) e Escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e estão baseados em ocorrências que chegaram ao Instituto Nacional de Seguro Social (INSS).
Apenas em 2022, foram informados ao INSS: 612,9 mil acidentes e 2,5 mil óbitos de trabalhadores e trabalhadoras com vínculo trabalhista formal, um aumento de 7% em relação a 2021. Com isso, a incidência de acidentes de trabalho, no ano passado, chegou a 171 casos a cada 10 mil empregos. A estimativa é que o número seja ainda maior visto que o levantamento considera apenas funcionários com carteira assinada.
Considerando a série histórica (2012-2022), foram identificados 6,7 milhões de acidentes de trabalho, sendo que 2,3 milhões levaram a afastamentos pelo INSS. Grande parte dos acidentes foi decorrente da operação de máquinas e equipamentos (15%) levando a lesões graves como amputações. A frequência de ocorrências envolvendo aparelhos foi 15 vezes maior do que as demais causas e gerou três vezes mais acidentes fatais.
Ocupações “mais perigosas”
Ainda, segundo a pesquisa, trabalhadores do setor hospitalar são os mais afetados. Em 2022, foram 55,6 mil comunicações de acidentes ao INSS relacionadas ao segmento. Outras áreas com queixas mais frequentes são comércio varejista de mercadorias em geral (18,5 mil), transporte rodoviário de carga (13,5 mil), abate de aves, suínos e pequenos animais (10 mil) e construção de edifícios (10 mil).
Técnicos em enfermagem são as vítimas mais recorrentes (36 mil) seguidos de alimentadores de linha de produção (31,4 mil), faxineiros (20 mil), motoristas de caminhão (12 mil) e serventes de obras (11 mil).
Quanto aos trabalhadores de sexo masculino, o grupo mais atingido foi o de jovens de 18 a 24 anos (70 mil) e, entre as mulheres, a faixa etária mais atingida é de 35 a 39 anos (29,8 mil).

Franciele Rodrigues
Jornalista e cientista social. Atualmente, é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tem desenvolvido pesquisas sobre gênero, religião e pensamento decolonial. É uma das criadoras do "O que elas pensam?", um podcast sobre política na perspectiva de mulheres.