Em meio à campanha de vacinação contra a gripe, que foi antecipada no Paraná, deputados estaduais se uniram na sessão desta quarta-feira (2) para rebater um discurso feito pelo deputado Márcio Pacheco (PL). Segundo ele, pais e mães estão sendo perseguidos por não vacinarem seus filhos contra a covid, o que faria parte de uma “cartilha de ideologia esquerdista-marxista” comandada pelo governo Lula (PT).
Para o deputado, a obrigatoriedade da vacina contra a covid tem como objetivos “desestruturação das famílias, desvalorização da figura do pai na estrutura familiar e relativização da fé e dos valores cristãos”. Apesar de criticar a imunização contra a covid, ele disse ser favorável ao calendário nacional de vacinas para crianças – que inclui 18 imunizantes obrigatórios, entre eles contra a Influenza, que começou a ser aplicada na segunda-feira (dia 1º ) no Paraná.
O parlamentar atribuiu a determinação para vacinar crianças ao governo federal, quando na verdade a decisão original é do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2020, o Supremo decidiu que o Estado pode multar pais que não vacinarem seus filhos. No mês passado, a 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que a vacinação de crianças e adolescentes contra covid-19 é obrigatória e que a recusa pode ser considerada negligência parental. A vacina foi incluída no Plano Nacional de Imunização (PNI) em janeiro de 2024.
Reação
A fala de Pacheco gerou reações na sessão de quarta-feira. Os deputados Luiz Cláudio Romanelli (PSD), Dr. Antenor (PT), Professor Lemos (PT), Márcia Huçulak (PSD), Luciana Rafagnin (PT), Arilson Chiorato (PT) e Renato Freitas (PT) questionaram as declarações.
“A questão da vacina é de lógica científica, de saúde pública. A vacina não é de esquerda ou de direita, é um direito”, afirmou o líder da oposição na Assembleia, Arilson Chiorato. “A gente vê aqui um debate politizado por bolsonaristas. Trazem esse tema no momento em que o Brasil inicia uma campanha de vacinação, para diminuir a vontade das pessoas de se vacinar, espalhar medo. É uma forma de abordagem perigosa, nociva à saúde pública”.
Segundo Márcia Huçulak (secretária da Saúde de Curitiba durante a pandemia), um terço das cerca de 700 mil mortes por covid registradas no país poderiam ter sido evitadas se o governo da época (cujo presidente era Jair Bolsonaro) não tivesse tratado o assunto de forma ideológica. “Infelizmente, se colocou ideologia num assunto que deve ser da ciência, que muitas vezes é negada. O país podia ter tido pelo menos um terço a menos de mortes por covid se não tivesse colocado ideologia na ciência”.
Dr. Antenor atribuiu o negacionismo ao governo de Jair Bolsonaro. “O posicionamento idiota e ridículo do ex-presidente levou um prejuízo imenso. A maioria das pessoas que está morrendo de covid hoje é de pessoas que acreditaram nessa falácia. E temos que ouvir essas besteiras de gente que lê texto encomendado da extrema direita”.
Renato Freitas lembrou que a taxa de mortes no Brasil durante a pandemia foi maior que a média mundial. “O Brasil tem 2,7% da população mundial, entretanto nós fomos cerca de 10% das vítimas da covid no mundo. O país onde proporcionalmente mais se morreu de covid, junto com os Estados Unidos. Por conta de uma política de propagação da ignorância, a fim de ideologizar o debate”.
A assessoria de Márcio Pacheco afirmou que o parlamentar não é contrário à vacina para a covid-19, mas à obrigatoriedade de sua aplicação, e que ele é favorável à oferta do imunizante para quem se sentir seguro. Pacheco não explicou por que a obrigatoriedade da vacinação contra a covid faria parte de uma “cartilha esquerdista” e as outras não — já que se disse favorável à aplicação dos outros imunizantes em crianças.
Proteção integral
Advogada especialista em direito à saúde, Renata Farah diz que o entendimento do Judiciário tem como base a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente. “A vacinação é um direito de todas as crianças e adolescentes, não cabe aos pais decidirem. Todas as vacinas do calendário vacinal do Ministério da Saúde são obrigatórias”.
A assessoria de Márcio Pacheco informou que o deputado recebeu reclamações de pais da cidade de Mercedes, no Sul do Paraná, que teriam sido convocados por uma promotora para explicar o fato de não terem vacinado seus filhos. “Crianças e adolescentes têm proteção integral, por isso em muitos casos o conselho Tutelar e o Ministério Público são acionados”, diz Renata Farah. “Atualmente há determinação para que escolas exijam comprovante de vacinação como condição da matrícula. Não é uma situação de autoritarismo, mas de proteção integral”.
Mortes por covid
De acordo com o Informe Epidemiológico 02/2025, da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), 41 pessoas morreram em decorrência da covid-19 no Paraná entre 29 de dezembro e 8 de março – quatro mortes foram causadas por Influenza A, uma por Influenza B e seis por outros vírus respiratórios. No mesmo período, foram registrados 383 novos casos de covid, número muito superior às infecções por Influenza A (28 para todos os tipos) e Influenza B (22).
Vacinação contra a gripe
O Paraná antecipou a campanha de vacinação contra o gripe, que teve início no dia 1º em todo o estado. O calendário nacional prevê o início da imunização no dia 7. Segundo o governo do Paraná, o estado já recebeu 1,17 milhão de doses, das quais 332 mil já foram descentralizadas para as 22 Regionais de Saúde. Os demais imunizantes serão distribuídos a partir desta quinta (3).
Devem ser vacinadas contra a Influenza crianças a partir de seis meses até menores de 6 anos (5 anos, 11 meses e 29 dias), idosos com 60 anos ou mais e gestantes, trabalhadores da saúde, professores, forças de segurança, população privada de liberdade e pessoas com doenças crônicas ou deficiências.
Fonte: Jornal Plural